A Espiritologia e a Teoria Espírita dos Fenômenos Psíquicos

Paulo Toledo Machado

Parte I

A Ciência do Espírito tem por objetivo a Investigação e o estudo do Fenômeno Espírita

O Espiritismo, revelando a existência do mundo dos Espíritos, e, conseqüentemente, a pré-existência e a sobrevivência do Ser; que a morte não existe ou que esta é, simplesmente, a destruição do corpo material; a possibilidade da intercomunicabilidade entre o mundo material e o mundo espiritual, isto é, a comunicabilidade entre os chamados vivos e os chamados mortos, dimensionou o campo do Conhecimento.

A Epistemologia Espírita traz novas luzes. À noção imprecisa, vaga, pouco clara, que herdamos acerca da vida futura, e que nos deixava não poucas dúvidas, com o Espiritismo desapareceu. A vida futura, para nós, espíritas, hoje é uma realidade.

Identificando o Espírito como as individualidades dos seres extra-corpóreos, o Espiritismo no mostra "a vida da alma, o ser essencial, porque é o ser pensante, remontando no passado a uma época desconhecida, estendendo-se indefinidamente pelo futuro, de tal sorte que a vida terrena, mesmo de um século, não passa de um ponto nesse longo percurso" (RE, ano 1862, EDICEL, p. 192) e demonstrou a existência do perispírito, envoltório semi-material e inseparável do Espírito, que dele se serve para transmissão do seu pensamento.

A Teoria Espírita dos Fenômenos Psíquicos se funda, pois, nos seguintes princípios: a existência do Espírito, sua preexistência e sobrevivência ao corpo físico, suas manifestações e a existência do perispírito.

E, sendo assim, é válido lembrarmos, porque, esta verdade, é conhecida de todos os espíritas - que não há, para o Espiritismo, fenômeno psíquico sem ALMA ou ESPÍRITO, melhor dizendo. E é, por essa razão, que fenômeno psíquico, no Espiritismo, é chamado FENÔMENO ESPÍRITA.

O FENÔMENO ESPÍRITA é abrangente, global, porque ele é resultante das manifestações do Espírito, encarnado ou desencarnado. O estudo cuidadoso da obra espírita, que codifica os ensinos dos Espíritos, compendiada por Allan Kardec, não nos deixa dúvidas.

O Fenômeno Espírita

O FENÔMENO ESPÍRITA, dissemos atrás, é abrangente, global e entendemos ser genérico. Ele abrange os fenômenos que se produzem com a intervenção dos Espíritos, encarnados ou desencarnados. No primeiro caso, temos os fenômenos espíritas anímicos ou da emancipação da alma e, no segundo caso, os fenômenos espíritas da mediunidade ou mediúnicos. Em ambos os casos o Espírito é sempre o agente ou a causa.

É uma posição espírita e não psiquista. De fato, o nosso querido e sempre lembrado João Teixeira de Paula, muito escolástico, considerando o Fenômeno Psíquico genérico, considera o Fenômeno Espírita espécie (Enciclopédia de Parapsicologia, Metapsíquica e Espiritismo, ed.Cultural Brasil Editora, Ltda., 1973, 3a. ed. V. 1, p. 117). Para ele o Fenômeno Psíquico abrange o Espírita ou Espirítico, assim como o Psicológico e o Anímico (ou Personismo).

Allan Kardec adicionou ao título da "La Revue Spirite” o subtítulo “Journal d’Études Psychologiques et de Spiritualisme Experimental", porque o quadro que ela abrangeria compreenderia "tudo quanto se ligasse ao conhecimento da parte metafísica do homem, "pois estudar a natureza dos Espíritos é estudar o homem" (RE, ano 1858, EDICEL, p. 5).

A classificação que propomos poderá não ser pacífica nem entre os espíritas, em razão do cientificismo ou dogmatismo científico. Mas, se "a classificação dos fenômenos metapsíquicos depende, naturalmente, do ponto de vista em que nos colocamos, como nota "Flournoy" (Dr. Lobo VILELA, Revista de Metapsicologia, no. 4, ano 1951, p. 362) o nosso posicionamento, além de doutrinário, é espiriticamente didático.

Allan Kardec emprega sempre a denominação Fenômeno Espírita, defendendo e explicando a hipótese espírita.

Em "O Livro dos Médiuns", o insigne Mestre nos dá a explicação teórica dos Fenômenos Espíritas. Ele não se refere a Fenômeno Psíquico. Isto é, Kardec não emprega esta denominação. Para classificar o Fenômeno Espírita, Kardec o divide quanto aos seus efeitos. Assim, o Fenômeno Espírita, segundo Kardec, pode ser de efeitos físicos e de efeitos intelectuais. A denominação Fenômeno Espírita é genérica. Efeitos físicos e efeitos inteligentes são espécies (O Livro dos Médiuns, FEB, 1904, 5a. ed. p. 36).

O Fenômeno Espírita de Efeitos Físicos são todos aqueles decorrentes de efeitos sensíveis, como os ruídos, o movimento e o deslocamento de corpos sólidos (o movimento circular das mesas conhecidas sob o nome de "mesas girantes") e as pancadas.

O Fenômeno Espírita de Efeitos Inteligentes são todos aqueles que provam "qualquer ato livre e voluntário, exprimindo intenção, ou respondendo a um pensamento (ob. cit. p. 69). Mas, é importante observarmos, que Kardec estudou e aprofundou o seu trabalho com destaque para o Fenômeno Espírita da Mediunidade ou, se quiserem, o Fenômeno Espírita Mediúnico, que pode ser de efeitos físicos ou de, efeitos inteligentes, espontâneos ou provocados. O próprio título da obra O Livro dos Médiuns ou Guia dos Médiuns ou dos Evocadores, e o conteúdo dela relativamente ao "ensino especial dos Espíritos sobre a teoria de todos os gêneros de manifestações, os meios de comunicar com o mundo invisível, o desenvolvimento da mediunidade, as dificuldades e os escolhos que se encontram na prática do Espiritismo" (aqui cabe observar que Espiritismo é expressão usada em lugar de Mediunismo), situa o seu interesse, pelo menos o mais imediato.

Mas, não temos dúvidas, que o trabalho de Kardec e o interesse dos Espíritos Codificadores, necessariamente, tinha que ser voltado para o Fenômeno Espírita da Mediunidade. E, também, não foi outra a preocupação de tantos cientistas que pesquisaram o Fenômeno Espírita. O Dr. Schrenck-Notzing escreveu uma obra com o título "Les Phénomènes Pshysiques de Ia Médiumnité" , Edição Payot, Paris, 1925, com prefácio do Professor Charles Richet, que se soma a tantos outros trabalhos, tornando numerosa e rica a bibliografia espírita acerca dos Fenômenos Espíritas da Mediunidade.

Não obstante, não podemos deixar de considerar, segundo o próprio Codificador, que o Espiritismo compreendendo, além da parte Filosófica, relativa às manifestações inteligentes, compreende uma parte Experimental, e que ela é relativa às manifestações em geral. E esta parte Experimental, no que diz respeito aos Fenômenos Espíritas Anímicos ou da Emancipação da Alma, reclama dos espíritas estudiosos dos nossos dias um interesse maior objetivando uma metodologia de pesquisa e uma sistematização de estudo, com base na alma encarnada, para explicação dos fenômenos psicológicos. E, sobretudo, para que o Espiritismo reconquiste as áreas invadidas pela Metapsíquica, Metagnomia, Metapsicologia, Parapsicologia, Psicotrônica, Metapsicofísica, Biopsíquica, Parafísica, e outras, e, como ciência espiritologia, dê claridades à Psicologia, fazendo dela uma verdadeira Espiritologia.

O Espírito

"L’ AME, l’être immaterial et individuel qui reside em nous et qui survit au corpg" (Le Livre des Esprits, par Allan Kardec, Paris, E. Dentu, Librairie, 1857, p. 2), traduzindo, "a alma é o ser imaterial e individual que reside em nós e que sobrevive ao corpo" e que nós, espíritas, denominamos Espírito.

Aliás, para ficar mais claro, devemos dizer que foram os próprios Espíritos que assim se declaram: "L’être mysterieux qui repondait ainsi, interrogué sur sa nature, declara qu’il était esprit ou génie, se donna um nom, et fournit divers renseignements surson compte"(ob. cit. p. 6) (O ser misterioso que respondia, interrogado sobre sua natureza, declarou que era Espírito ou Genio, deu seu nome e forneceu ainda diversas informações a seu respeito).

O ser misterioso foi interrogado acerca de sua natureza, porque era desconhecida a natureza da causa dos fenômenos, das manifestações, que, então, se produziam.

Assim, se identificou, para nós, espíritas, a causa e por que não dizermos o agente dos fenômenos psíquicos, e "comme ayant appartenu, pour quelques-uns du moins, aux hommes qui ont vécu sur Ia terre” (ob. cit. p. 9) (e se apresentam como havendo pertencido, alguns deles pelo menos, a homens que viveram anteriormente na Terra).

No entanto, como o propósito maior deste nosso trabalho é despertar o interesse dos estudiosos e pesquisadores espíritas com relação aos fenômenos espíritas anímicos ou de emancipação da alma, a questão da existência dos Espíritos se torna secundária, pois ela não constitui o ponto de partida.

"Sendo os Espíritos as almas dos homens, o verdadeiro ponto de partida, está na existência da alma". (O Livro dos Médiuns, Allan Kardec, FEB, 1904, 5a. ed. p. 22).

A Alma

"A Alma", para nós espíritas, e segundo os Espíritos Codificadores, "é um Espírito encarnado" (Resposta à questão 81, de "Le Livre des Esprits", parAllan Kardec, Paris, E. Dentu, Librairie, p. 53).

Parece-nos que, hoje, não se discute a existência da Alma e que o estudo dos caracteres antagônicos de Alma e do corpo, resolve a questão da distinção entre um e outro.

Mas, não é pacífica a idéia que filósofos e cientistas, desde tempos atrás até hoje, conceberam e concebem.

"Alma, para os espiritualistas, é uma substância imaterial, distinta do corpo e capaz de existir por si só; para os materialistas, é uma simples função do organismo, do qual faz parte integrante e sem o qual não pode subsistir" (Noções de Psicologia, de lago Pimentel, Melhoramentos, S. Paulo, 1953, p. 7).

Para os materialistas, a Alma é efeito; para os espiritualistas, a Alma é causa.

Wilhelm Wundt, filósofo, psicólogo e fisiologista alemão (1832-1920), não concorda com o conceito substancialista da Alma. Ele propõe um conceito atualista: "a Alma é a diversidade de acontecimentos enlaçados entre si" ("La Psicologia Contemporânea" , de J. Vicente Viqueira, Barcelona, Editorial Labor, S/A, 1937, 2a. ed., p. 34).

Para o fenomenismo a Alma é uma série de fenômenos, como sejam emoções, idéias, etc.

"O que se chama Alma", diz Littré (Maximiliano Paulo Emílio Littré, filólogo e filósofo francês, discípulo de Augusto Conte, 1801-1881) é, na realidade, o conjunto das funções do cérebro e da medula espinal. É o materialismo negando o substancialismo.

Como se vê, não é fácil, para os não espíritas, definirem ou conceituarem a Alma. É vasta a imaginação. A existência da Alma para eles é, necessariamente, uma admissão, sem a qual os fatos da vida psíquica se tornam inexplicáveis. Está aqui, é óbvio, uma outra razão para que o Espiritismo, desenvolvendo o seu estudo e a sua pesquisa, posicione o seu ponto de vista acerca dos fenômenos psicológicos, sejam os chamados orgânicos -extensos e quantitativos, ou psíquicos - inextensos e qualitativos. E esse posicionamento demonstrará que esses fenômenos, embora de naturezas aparentemente diversas e irredutíveis, provêm de uma mesma "substância": a Alma ou Espírito encarnado, considerado o corpo etéreo ou perispiritual de que se reveste.

O Fenômeno Psíquico

O emaranhado vocabularismo da fenomenologia psíquica e a complexidade da classificação de sua nomenclatura constituem um sério problema.

No campo das pesquisas psicológicas são enormes as divergências em torno das hipóteses formuladas. Nunca se formulou uma hipótese satisfatória.

Os estudantes do Hipnotismo estão, como sempre estiveram, desde os dias de Mesmer, divididos. A teoria das emanações fluídicas de Mesmer, por ele chamada de "magnetismo animal" é contraditada por uns e aceita por outros.

A teoria elétrica de Bove e Dods - pulmões positivos e sangue negativo - teve seus adeptos (A Lei dos Fenômenos Psíquicos, por Thonson Jay Hudson, traduzida por D. Santos, São Paulo, Livraria Liberdade, 1926, p. 5).

A explicação fisiológica de Braid, de certas classes de fenômenos, "satisfaz aqueles que acreditam que no homem não existe coisa alguma que não possa ser pesada na balança ou dissecada com o escalpelo".

A Escola de Salpetrière sustentou que o hipnotismo era uma moléstia do sistema nervoso, e que seus fenômenos era explicáveis pelos princípios fisiológicos.

A Escola de Nancy sustentou que a sugestão era o fator ultra potente na produção de todos os fenômenos hipnóticos.

Braid, a Escola de Salpetrière e a Escola de Nancy, contrariando antigos hipnotistas, negam a possibilidade de se produzirem "os altos fenômenos de hipnotismo, conhecidos como clarividência, transmissão de pensamento ou leitura mental' (ob. cit. p. 5).

No entanto, o Fenômeno Psíquico (do gr. phainómenon, aparição; e psykhikós, alma), considerando-o genérico, é qualquer manifestação de ordem psíquica, ou fenômenos da Psique ou da Alma.

Assim, simplificando diremos que a fenomenologia psíquica é dividida em FENÔMENOS NORMAIS e FENÔMENOS ANORMAIS. A primeira classe, que são habituais, entra nos quadros da Psicologia e muitas vezes nos da Psiquiatria. A segunda classe, de fenômenos inabituais, toma diversos nomes, como "o de Investigação Psíquica, Metapsíquica, Metapsicologia, Parapsíquica, Sexto Sentido, Percepção Extrasensorial, Metagnomia, Paranormal, ou Extra-normal e outros aplicáveis unicamente a determinados ramos, como Telepatia, Psicometria, Clarividência, Psicografia, etc." (Dicionário Esotérico, por Zaniah, Buenos Aires, Editorial Kier, 1962, p. 103).

(Continua no próximo Boletim)

(Publicado no Boletim GEAE Número 456 de 27 de maio de 2003)