A Idade do Espírito e sua Importância na Vida Social

Raul Franzolin Neto

O espiritismo como doutrina filosófica só tem sentido de existir para gerar grandes avanços na reforma íntima dos indivíduos e, conseqüentemente, na melhor convivência dos homens em sociedade.

O homem para viver melhor certamente deve buscar os conhecimentos necessários que envolvem a vida como um todo. Para se jogar bem xadrez, por exemplo, devemos primeiramente conhecer as suas regras e em seguida aprender a jogar e com o exercício da prática ir melhorando a cada nova jogada. O estudo é essencial para traçar as estratégias imediatas, raciocinando a cada nova jogada. Grandes lances são feitos em uma jogada onde várias outras possibilidades futuras já foram planejadas. Um deslize com uma jogada precipitada e mal planejada, pode significar enorme esforço do jogador para corrigir o erro e colocar-se em vantagem novamente. Muitas vezes a partida pode ter sido definida numa jogada não raciocinada. Evidentemente um leigo que desejasse jogar com um profissional não teria a menor chance de vencê-lo. Mas se essa for a vontade dele, começará a seguir as etapas iniciais e passando a praticar com intensidade, após muito planejamento e raciocínio, ele mesmo poderá jogar de igual para igual com aquela mesma pessoa ou mesmo vencê-la. Tudo depende da dedicação e do esforço de cada um na arte de cumprir uma tarefa.

Conhecendo que a evolução espiritual é eterna e perfeita como todas as Leis Divinas, nada é impossível. Não importa se uma determinada tarefa foge da nossa capacidade de solucioná-la no momento, pois poderemos fazê-la ainda melhor no futuro, mas outras estão disponíveis ao nosso alcance. Somente com o conhecimento das regras a que estamos sujeitos é possível desenvolver uma vida mais saudável e harmoniosa. Para isso é fundamental o desenvolvimento criterioso da razão, sem cautelas, preconceitos e fanatismo. O espiritismo é capaz de nos colocar no caminho do raciocínio constante, em cada passo que damos na vida, e aprender com os exemplos do dia a dia com base nos ensinamentos que adquirimos do plano espiritual. O fundamental de tudo é ter confiança no futuro de que a vida é eterna e continuamente fruto do trabalho constante através das reencarnações e aprimoramento espiritual.

Uma das regras fundamentais da evolução espiritual que cada um deve ter consciência é o respeito entre as pessoas, ou melhor, respeito ao Espírito. Quando falamos pessoas, imediatamente, distribuímos diferenças existentes entre elas, sejam pelas classes sociais, raciais, locais de residências regionais, idades (crianças, jovens, adultos, velhos, etc.) e outras. Mas se falarmos em espírito, não poderemos identificar essas diferenças observadas no momento, pois envolve várias reencarnações e outras formas de vida que ele pode ter passado.

Hábitos de convivências em família, sociedades, países, etc são difíceis de serem analisados, pois os espíritos estão fortemente sujeitos às suas influências. Porém tudo isso também faz parte do estado natural das coisas. As evoluções dos espíritos são independentes e sempre existirão espíritos que não concordam com o tipo de vida que levam nas sociedades. Conflitos são observados de todos os tipos e diferentes maneiras.

A relação de respeito entre as pessoas promove marcas duradouras no espírito. Uma das fases marcantes na vida do espírito encarnado é a fase que chamamos de adaptação do espírito reencarnante no planeta, ou seja, a fase da infância. As crianças muitas vezes são tratadas com total desrespeito pelos jovens, adultos e velhos e negligenciadas como se fossem pessoas isentas de direitos morais na sociedade. É comum verificarmos o desprezo da sociedade como um todo pelas crianças em qualquer atividade que ela possa desenvolver. Quando uma criança, por exemplo, entra numa casa comercial para comprar uma mercadoria, embora esteja com pouca idade de vida e mesmo com o dinheiro suficiente fornecido pelos pais, via de regra, o atendente não lhe dá atenção e é comum vermos as outras pessoas passarem na sua frente no caso de uma fila. Muitos ainda dizem: “sai para lá garoto!”. Certamente se os pais virem a cena não irão gostar, pois aprendem a amar seus filhos e vêem o grande potencial que existe dentro deles. Outro caso é o desprezo que ocorre com os velhos e muito embora muitas pessoas dizem respeitá-los, não é isso que muitas vezes ocorre. No fundo o adulto se julga o auge da evolução do espírito. A inocência da criança e a falta de agilidade do velho são desconsideradas.

Estamos falando em vida em sociedade e isso não ocorre com muitas pessoas, pois sabemos que isso depende do grau de evolução de cada um. Não podemos de maneira alguma conhecer a real idade de cada espírito encarnado, pois desconhecemos a suas várias reencarnações anteriores e o tempo vivido no próprio plano espiritual. Podemos sim perceber pelos indicativos de evolução espiritual o possível ponto evolutivo da criança. Dessa forma, a criança de agora poderá ser muito mais velha em idade real que um velho agora e ser muito mais evoluída. Isso é apenas uma questão da necessidade reencarnatória individual e, portanto, de quanto tempo e quando se vai reencarnar. A idade do indivíduo de hoje fica assim, completamente desnecessária e inútil em se tratando da importância para a vida real. Cada um deverá sentir o seu melhor desempenho com o avanço de sua idade terrena. Uns gostam e relembram com saudades o seu tempo bem vivido na infância, ou na adolescência, na fase adulta. Muita gente tem pavor do envelhecimento e tudo fazem para manter-se na idade que mais apreciam. Inegavelmente todas as fases são importantes para o espírito encarnado e a cada uma delas as dificuldades devem ser superadas da melhor maneira possível. Na Terra é assim, em outros planetas as características da reencarnação podem ser completamente diferentes.

Em cada fase de nossa vida marcamos os sentimentos positivos e negativos vividos. O desrespeito é um dos sentimentos mais marcantes. Já mesmo encarnados é possível com pequeno esforço mental lembrar-se de fatos negativos marcantes em nossa infância e o causador do desrespeito está em nossa mente e é um problema evolutivo a ser solucionado. A vaidade está também ligada ao desrespeito e a todos os outros sentimentos negativos do homem. Às vezes uma professora ou professor, por exemplo, não trabalha com os sentimentos nobres de amor, respeito, paciência, etc. A criança passa por traumas e não se sente feliz, quando por ventura torna-se famosa, a professora diz com orgulho: “Eu fui sua professora, lembra-se?”.

É preciso definitivamente compreender que cada ser tem suas características evolutivas marcantes que formam a sua personalidade ao longo do tempo. Não há explicação coerente e racional na formação de dois indivíduos nascidos e criados na mesma família, portanto, no mesmo ambiente, obtendo dos pais os mesmos tratamentos e amor, e serem completamente diferentes em personalidades. A assimilação pela criança dos conceitos oferecidos pelos pais ou por qualquer pessoa depende inexoravelmente do seu grau evolutivo. Afinidades, antipatias ou nenhum desses são importantes na aceitação ou na negação naturais das práticas do comportamento humano. Aceitação ou negação naturais significam não aquelas em que são impostas pela força e desarmonia. Vamos burilando nosso espírito, ou nossa personalidade, lentamente, dia após dia, encarnação após encarnação e devemos ter isso em mente para podermos compreender as relações humanas. Que maravilha é a felicidade de uma mãe ou pai ao ter uma grande afinidade com seu filho ou filha! Há uma compaixão e compreensão mútua, crescimento, progresso e alegrias. Mas o grande desafio se faz em desenvolver uma vida produtiva em relações de antipatias ou baixas afinidades.

Não estamos no momento discutindo sobre a melhor maneira de educar os filhos. Essa é uma área de grande interesse e deve ser estudada com muita dedicação e seriedade tendo em vista todas as características envolvidas no processo da reencarnação e da evolução espiritual. Mas o respeito à vida individual de cada ser em todas as suas fases do desenvolvimento deve ser o nosso objetivo primordial rumo a felicidade eterna.

Raul Franzolin Neto

(Publicado no Boletim GEAE Número 391 de 16 de maio de 2000)