A razão e seus limites

Robson Gonçalves

Essa compreensão do momento em que o Espírito da Verdade nos trouxe a Doutrina suscita outras questões. Uma delas, que considero mais digna de reflexão, refere-se a aspectos das antigas práticas religiosas. Se o Espiritismo significa uma alteração profunda da compreensão que temos sobre a Razão e seus limites, como devemos passar a encarar as práticas religiosas herdadas do tempo em que a Fé era tão somente o campo do inexplicável e do fantástico? Como devemos refletir sobre a missa católica, a circuncisão judaica ou os ritos budistas?

Na verdade, poucos de nós, espíritas, admitiríamos ser totalmente insensíveis diante das cerimônias religiosas de outras crenças, sejam elas cristãs ou não. Qual de nós não se sente tocado ao ouvir o som harmonioso dos cânticos gregorianos, só para citar um exemplo mais contundente? Felizmente, essa comoção que muitas vezes sentimos diante de outros credos e mesmo diante de outros rituais não deve causar-nos nenhum drama de consciência. É a própria Doutrina espírita que vem em nosso socorro para esclarecer, afinal, porque o espírita, tão mais racional que tantos outros adeptos de outras tantas religiões, não é insensível a alguns de seus ritos.

Antes de expressar minha própria opinião nesse campo, gostaria de louvar o texto "Ritos e Doutrina Espírita", publicado na edição 337 do Boletim GEAE, pelo companheiro Ademir Xavier, sobre o mesmo tema. Acerca da opinião de Ademir, acredito que não cabe reparo algum.

Como aprendemos no Livro dos Espíritos, aplica-se à evolução da compreensão humana, em todos os campos, à máxima de que a Natureza não dá saltos. Isso significa que, a cada nova experiência terrena, avançamos um pouco mais nos campos intelectual e moral, sem jamais rompermos abruptamente com passado, seja em seus aspectos positivos – o aprendizado já acumulado – seja nos negativos – as dívidas acumuladas com o próximo ou conosco mesmos.

Cada um de nós que hoje abraça a Doutrina Espírita, encontra-se em estágio mais avançado de entendimento acerca da Razão e seus limites. Sabemos que Fé e Razão são plenamente conciliáveis, até as fronteiras do nosso entendimento. Se é assim, certamente fomos iniciados no campo da religião em vidas anteriores, no seio de outras doutrinas, praticando seus ritos e comungando de seus dogmas e crenças. Inescapavelmente, teremos ouvido os cantos, acendido os lumes, visitado os alteres e respeitado os dias consagrados dessas outras crenças. Foi em meio a seus ritos que realizamos os primeiros progressos na escola do entendimento religioso, aprendendo os rudimentos da fé na existência de um Ser Maior e da vida espiritual. Foi em meio aos ritos antigos que nos sentimos irmanados a nossos companheiros de fé e de jornada evolutiva e convocados a refletir sobre a justiça divina e a necessidade de um comportamento moral adequado.

Não é relevante o quanto essas crenças antigas, com seus rituais verdadeiramente tidos como mágicos, estão afastados de nossa crença atual. Não há homem adulto que, sentido-se em plena maturidade intelectual, renegue as brincadeiras de criança, nas quais desenvolveu, quiçá, a sociabilidade, o domínio do idioma, aprendendo moral com as fábulas e hábitos de higiene com as histórias em quadrinho. Para aqueles que estão na infância do entendimento, mesmo que moralmente muito avançados, como tantos expoentes de outras religiões, é justo que se reservem as práticas mais antigas, que sob o véu do inexplicável, trazem ensinamentos sublimes.

Não é por outro motivo que, tantas vezes, no fundo de nossas almas, nos sentimos comovidos diante do soar de um sino ou a imagem do incenso sendo queimado, nos templos mais diversos. Essa emoção é comparável àquela que sentimos ao visitar, depois de décadas, o prédio já desgastado pelo tempo no qual a professora primária nos ensinou as primeiras letras.

Em resumo, a mensagem que gostaria de deixar é essa. O Espiritismo não comporta as práticas ritualísticas como o homem adulto não volta aos brinquedos da infância. Nem por isso o ritual das antigas religiões deixa de nos tocar o fundo da alma. Essas práticas merecem não apenas nosso respeito, como nossa verdadeira gratidão pois a emoção que sentimos não nega o racionalismo que abraçamos. Essa emoção está tão simplesmente para além da Razão e de seus limites.

(Publicado no Boletim GEAE Número 377 de 28 de dezembro de 1999)