Alguns argumentos contra o Suicídio (III)

Rubens Santini de Oliveira

A visão da Doutrina Espírita(4)

Selecionamos as seguintes perguntas feitas por Kardec aos Espíritos Superiores, à respeito do suicídio:

P-944: O homem tem o direito de dispor da sua própria vida?
R: Não; somente Deus tem esse direito. O suicídio voluntário é uma transgressão da Lei.

P-946: Que pensar do suicida que tem por fim escapar às misérias e às decepções deste mundo?
R: Pobres Espíritos que não tiveram a coragem de suportar as misérias da existência! Deus ajuda aos que sofrem e não aos que não têm forças, nem coragem. As tribulações da vida são provas ou expiações. Felizes os que suportam sem se queixar, porque serão recompensados!...

P-948: O suicida que tem por fim escapar à vergonha de uma ação má é tão repreensível como o que é levado ao desespero?
R: O suicídio não apaga a falta. Pelo contrário, com ele aparecem duas em lugar de uma. Quando se teve coragem de praticar o mal, é preciso tê-la para sofrer as conseqüências. Deus é quem julga. E, segundo a causa, pode às vezes diminuir o seu rigor.

P-949: O suicídio é perdoável quando tem por fim impedir que a vergonha envolva os filhos ou a família?
R: Aquele que assim age não procede bem, mas acredita que sim e Deus levará em conta a sua intenção, porque será uma expiação que a si mesmo se impôs. Ele atenua a sua falta pela intenção, mas nem por isso deixa de cometer uma falta. De resto, se abolirdes os abusos da vossa sociedade e os vossos preconceitos, não tereis mais suicídios. Aquele que tira a própria vida para fugir à vergonha de uma ação má, prova que tem mais em conta a estima dos homens que a de Deus, porque vai entrar na vida espiritual carregado de suas iniqüidades, tendo-se privado dos meios de repará-los durante a vida. Deus é muitas vezes menos inexorável que os homens: perdoa o arrependimento sincero e leva em conta o nosso esforço de reparação; mas suicídio nada repara.

P-956: Os que, não podendo suportar a perda de pessoas queridas, se matam na esperança de se juntarem a elas, atingem seus objetivos?
R: O resultado para elas é bastante diverso do que esperam, pois em vez de se unirem ao objeto de sua afeição, dele se afastam por mais tempo, porque Deus não pode recompensar um ato de covardia e o insulto que Lhe ‚ lançado com a dúvida quanto à Sua providência. Eles pagarão esse instante de loucura com aflições ainda maiores do que aqueles que quiseram abreviar, e não terão para os compensar a satisfação que esperavam.

O drama de Camilo Castelo Branco(6)(*)

“Eloquente é também o epílogo do drama que foi a vida do grande escritor português Camilo Castelo Branco. Obsidiado, pessimista, médium que jamais deu valor ou prestou atenção às suas faculdades mediúnicas, nem mesmo aos notáveis fenômenos ocorridos na sua desregrada existência, ele próprio preparou o seu triste fim.

Dispondo de grande cultura, um tanto habituado aos trambolhões da vida, que ele nunca soube bem viver, velho hepático e não menos dispéptico, foi atingido por um mal de olhos que o levou gradativamente às fronteiras da cegueira completa.

Sempre esperançado de melhoras ou cura, foi passando o tempo, até conseguir consultar-se com um abalizado especialista, que o foi examinar na própria residência e de que esperava a última palavra decisiva sobre o mal. Isso em junho de l890. Tratava-se de um caso perdido, de irremediável cegueira. Ouvindo a terrível revelação, Camilo Castelo Branco, que já pensava diversas vezes em suicídio, deu um tiro na cabeça meses depois.

Eis sua carta de despedida:

“Em 26 de novembro de l890.
10 horas da noite.

Os inenarráveis padecimentos que se vão complicando todos os dias levam-me ao suicídio - único remédio que lhes posso dar. Rodeado de infelicidades de espécie moral, sendo a primeira insânia de meu filho Jorge, e a segunda os desatinos de meu filho Nuno, nada tenho a que me ampare nas consolações de família. A mãe desses dois desgraçados não promete longa vida; e se eu pudesse arrastar minha existência até ver Ana Plácida morta, infalivelmente eu me suicidaria. Não deixarei cair sobre mim essa enorme desventura - a maior, a incompreensível à minha grande compreensão da desgraça. Esta deliberação de me suicidar vem de longe, como um pressentimento. Previ, desde os trinta anos, este fim. Receio que, chegando o supremo momento, não tenha firmeza de espírito para traçar estas linhas. Antecipo-me à hora final. Quem puder ter a intuição das minhas dores, não me lastime. A minha vida foi tão extraordinariamente infeliz que não podia acabar como a da maioria dos desgraçados. Quando se ler este papel, eu estarei gozando a primeira hora do repouso. Não deixo nada. Deixo um exemplo. Este abismo a que me atirei ‚ o “terminus” da vereda viciosa por onde as fatalidades me encaminharam. Seja bom e virtuoso quem o puder ser”.

Mergulhado por esse trevoso salto no insondável abismo do suicídio, o incauto e orgulhoso literato, defrontou-se com as terríveis e irrecorríveis realidades do Além-Túmulo, onde o Espírito se choca com a muralha inderrocável das leis eternas que regem a verdadeira vida.

Longe de encontrar o repouso que vaidosamente a si próprio anunciara e prometera, o pobre escritor encontrou sofrimento, remorso, dores, cárcere de visões aterradoras, um cenário de expiações dolorosas.”

O Vale dos Suicidas(5)

“...região composta por vales profundos, com gargantas sinuosas e cavernas sinistras, no interior dos quais uivavam demônios enfurecidos, Espíritos que foram homens dementados pela intensidade e estranheza, verdadeiramente inconcebíveis, dos sofrimentos que os martirizavam. O solo coberto de matérias enegrecidos e fétidos, lembrando a fuligem, sendo imundo, pastoso, escorregadio e repugnante. O ar é pesadíssimo, asfixiante, gelado, coberto por um forte nevoeiro. Os Espíritos que ali habitavam vivem sufocados como se matérias pulverizadas, nocivas mais do que a cinza e o cal lhes invadissem as vias respiratórias. Os raios solares jamais chegam a esse lugar. É um local onde não existem paz, consolo e a esperança. Tudo é marcado pela desgraça, miséria, assombro, desespero e horror. Quem ali habita são grandes vultos do crime e falanges de suicidas. (...)

De outras vezes, tateando nas sombras, lá íamos, por entre gargantas, vielas e becos, sem lograrmos indícios de saída... Cavernas, sempre cavernas - todas numeradas -; ou longos espaços pantanosos quais lagos lodosos circulados de muralhas abruptas, que nos afiguravam levantadas em pedra e ferro, como se fôramos sepultados vivos nas profundas tenebrosidades de algum vulcão! Era um labirinto onde nos perdíamos sem podermos jamais alcançar o fim! Por vezes acontecia não sabermos retornar ao ponto de partida, isto é, às cavernas que nos serviam de domicilio, o que forçava a permanência ao relento até que deparássemos algum covil desabitado para outra vez nos abrigarmos. Nossa mais vulgar impressão era de que nos encontrávamos encarcerados no sub-solo, em presídio cavado no seio da Terra, quem sabia se nas entranhas de uma cordilheira, da qual fizesse parte também algum vulcão extinto, como pareciam atestar aqueles imensuráveis poços de lama com paredes escalavradas lembrando minerais pesados?! (...)

Cada um de nós, no Vale Sinistro, vibrando violentamente e retendo com as forças mentais o momento atroz em que nos suicidamos, criávamos os cenários e respectivas cenas que vivêramos em nossos derradeiros momentos de homens terrestres. Tais cenas, refletidas ao redor de cada um, levavam a confusão à localidade, espalhavam tragédia e inferno por toda a parte, seviciando de aflições superlativas os desgraçados prisioneiros. Assim era que se deparavam, aqui e ali, forcas erguidas, balançando o corpo do próprio suicida, que evocava a hora em que se precipitara na morte voluntária. Veículos variados, assim como comboios fumegantes e rápidos, colhiam e trituravam, sob suas rodas, míseros transloucados que buscavam matar o próprio corpo por esse meio execrável, os quais, agora, com a mente “impregnada” do momento sinistro, retratavam sem cessar o episódio, pondo à visão dos companheiros afins suas hediondas recordações! Rios caudalosos e mesmo trechos alongados de oceano, surgiam repentinamente no meio daquelas vielas sombrias: - era meia dúzia de réprobos que passava enlouquecida, deixando à mostra cenas de afogamento, por arrastarem na mente conflagrada a trágica lembrança de quando se atiraram às suas águas!... Homens e mulheres transitavam desesperados: uns ensangüentados, outros estorcendo-se no suplício das dores pelo envenenamento, e, o que era pior, deixando à mostra o reflexo das entranhas carnais corroídas pelo tóxico ingerido, enquanto outros mais, incendiados, a gritarem por socorro em correrias insensatas, traziam pânico ainda maior entre os companheiros de desgraça, os quais receavam queimar-se ao seu contacto, todos possuídos de loucura coletiva! E coroando a profundeza e intensidade desses inimagináveis martírios — as penas morais: os remorsos, as saudades dos seres amados, dos quais não tinham mais notícias, os mesmos dissabores que haviam dado causa ao desespero e que persistiam em afligir!... E as penas físico-materiais: a fome, o frio, a sede, exigências fisiológicas em geral, torturantes, irritantes, desesperadoras! a fadiga, a insônia depressora, a fraqueza, o delírio!”

(Publicado no Boletim GEAE Número 334 de 2 de março de 1999)