As Irmãs Fox, Connan Doyle e o Espiritismo Brasileiro

Jáder Sampaio

2ª Parte do artigo iniciado no Boletim 453

Pesquisas e Relatos sobre as Irmãs Fox

No seu capítulo, amplamente documentado com declarações assinadas, Doyle vai mostrando ao leitor as investigações a que foram submetidas e as perseguições que as Irmãs Fox sofreram. A obsessão da grande maioria dos pesquisadores que as estudariam focalizava-se em descobrir as origens físicas ou fisiológicas das batidas.

Conan Doyle recuperou um episódio da vida de Margareth Fox onde ela se interessou e foi correspondida por um médico puritano chamado Kane, com quem veio a casar posteriormente, e as pressões que ele exerceu para que ela desmentisse a comunicação com os espíritos. A partir da análise das cartas, o criador de Sherlock Holmes conclui que ele “pensava de modo vago que houvesse alguma fraude” mas que “nos anos de sua maior intimidade Margareth jamais admitiu”, que “ele jamais pode sugerir no que consistia a falcatrua” e que “ela empregou as suas forças de maneira que os espírita sérios deploram”. (DOYLE, 1926. p. 97)

Assim como outros médiuns do século XIX, as Fox tiveram dúvidas quanto à origem espiritual dos fenômenos, e pode ser que houvessem praticado algum tipo de fraude em momentos isolados de sua carreira, especialmente porque passaram a viver da demonstração dos fenômenos. Conan Doyle transcreveu a seguinte frase do livro do Dr. Kane:

“...“Ela dizia sempre que nunca tinha realmente acreditado que as batidas fossem obra de espíritos, mas pensava que nisso havia uma relação com certas leis ocultas da natureza.” Esta foi sua atitude posterior na vida, pois em sua ficha profissional dizia que o povo devia por si mesmo julgar da natureza de suas forças.” (DOYLE, 1926. p. 97)

O banqueiro Charles Livermore, de Nova York, afirma que recebeu comunicações de sua esposa falecida, Estelle, num período de dez anos, mensagens através de Kate Fox, algumas escritas em francês, espanhol e italiano, idiomas desconhecidos pela médium.

O Sr. Cromwell Varley (eletricista responsável pelo lançamento do cabo submarino no atlântico) realizou esperiências sobre eletricidade com Kate Fox.

Em sua visita à Inglaterra Kate foi estudada por um conhecido membro da Sociedade Dialética de Londres, o Dr. William Crookes. Transcrevo abaixo um relato de um dos resultados obtidos por ele:

“O relatório de Crookes das observações na presença de Kate Fox continua sendo um claro exemplo de evidência para “raps” paranormais, exceto pela falta de múltiplas testemunhas. Ele obteve “raps” em vários objetos e materiais – um pedaço de vidro, um pandeiro, uma árvore, um pedaço de papel suspenso por uma linha.” (RUSH, 1986. p. 241`)

Sir Arthur Conan Doyle relatou um episódio da pesquisa de Crookes onde estavam presentes sua esposa e uma parente:

“Eu segurava ambas as mãos da médium numa das minhas enquanto seus pés estavam sobre os meus. Havia papel sobre a mesa em nossa frente e eu tinha um lápis na mão livre.

Uma luminosa mão desceu do alto da sala e, depois de oscilar perto de mim durante alguns segundos, tomou o lápis de minha mão e escreveu rapidamente numa folha de papel, largou o lápis e ergueu-se sobre as nossas cabeças, dissolvendo-se gradativamente na escuridão” (DOYLE, 1926. p. 101)

O Prof. Russo, Dr. Butlerof, da Universidade de São Petersburgo, teve seu relato transcrito no trabalho de Conan Doyle.

“De tudo quanto me foi possível observar em presença de Mrs Jencken, sou levado à conclusão de que os fenômenos peculiares a esse médium são de natureza fortemente objetiva e convincente e que, penso, seriam suficientes para levar o mais pronunciado céptico, desde que honesto, a rejeitar a ventriloquia, a ação muscular e semelhantes explicações dos fenômenos.” (DOYLE, 1926. p. 103)

Seguem-se outros relatos e poderíamos ainda transcrever mais citações de outros livros, mas estas são suficientes para afirmar-se que as Fox foram estudadas por cientistas, em ambientes controlados e apresentaram resultados satisfatórios, não apenas de “raps”, como de outros fenômenos de efeitos físicos. Aqui temos um capítulo de suas vidas que não pode ser atribuído à imaginação dos espíritas norte-americanos e que se acha bem documentada, ainda nos dias de hoje. Vemos também que as hipóteses de ação muscular eram conhecidas e controladas pelos cientistas que as estudaram, da mesma forma que o foram pelas comissões do Corinthians Hall.

Por que insistimos tanto em dizer que cientistas estudaram a mediunidade de Kate Fox? Um dos argumentos mais empregados por aqueles que querem desmerecer uma fonte histórica, repousa na idealização e na mitificação que geralmente acompanha movimentos sociais e culturais onde as opiniões se polarizam e o componente emocional se torna muito influente. No calor das discussões do Corinthians Hall, por exemplo, suas testemunhas poderiam se ater a eventos isolados ou contar a sua versão, profundamente marcada pela simpatia com as idéias espiritualistas. Embora este fenômeno seja um fenômeno humano, o cientista foi treinado a tentar ser o mais descritivo possível, a evitar suas simpatias e ater-se aos fatos para construir e reconstruir suas teorias. Ele depende profundamente de sua reputação no meio acadêmico para que suas comunicações tenham credibilidade. Todos sabemos que no século passado o clima vigente nas academias era de uma compreensão empírica das ciências, especialmente das ciências naturais. Ademais, os pesquisadores em questão apresentam sua metodologia de trabalho e os seus cuidados para evitar a ocorrência das principais hipóteses alternativas como a fraude e as ocorrências naturais.

Passamos agora à declaração de Margareth Fox, seus motivos e sua retratação.

Por que Margareth Fox afirmou que fraudava?

Margareth Fox-Kane deu uma declaração em setembro de 1888 ao jornal New York Herald denunciando o culto espiritualista, mas preservando a idéia de que os raps “eram a única parte dos fenômenos digna de registro”. (DOYLE, 1926. p. 105)

Alguns escritores como INARDI (1979) destacaram suas palavras mais duras e de efeito:

"Encontro-me aqui, nesta noite, na qualidade de uma das fundadoras do Espiritismo, para denunciá-lo como fraude absoluta do princípio ao fim, como a mais doentia das superstições e a mais maligna heresia que o mundo já conheceu..." (Margareth Fox-Kane apud INARDI, 1979. p. 89)

Ao contrário do que afirma nossa jornalista brasileira, Kate Fox ficou aborrecida com as declarações da irmã. Observe o leitor a correspondência que ela escreveu à senhora Cottel em novembro do mesmo ano:

“Eu lhe deveria ter escrito antes, mas minha surpresa foi tão grande, ao chegar e saber das declarações de Maggie sobre o Espiritismo, que não tive ânimo de escrever a ninguém. (...)

Agora penso que podia fazer dinheiro, provando que as batidas não são produzidas pelos dedos dos pés. Tanta gente me procura por causa da declaração de Maggie que me recuso a recebe-los.” (DOYLE, 1926. p. 107)

Doyle apresenta três razões para a conduta de Margareth Fox-Kane. A primeira razão envolve uma discussão entre Kate e Leah em decorrência ao alcoolismo da primeira. Kate e Margareth se tornaram alcoólatras e Leah fez pressões para que parassem de beber, chegando a ameaçar Kate com a perda da guarda dos filhos. Ao que parece, ela chegou a ser presa por algum tempo em decorrência de uma denúncia da irmã mais velha, que teria alegado maus tratos para com os filhos. (DOYLE, 1926. p. 106) Margareth se indispôs contra Leah em defesa da irmã, ofendendo-lhe em sua crença no espiritualismo. RINN (1954) transcreveu algumas declarações que ela lhe deu sobre o desentendimento com a irmã. Deixo ao leitor a tradução de um deles, que nos esclarece sobre o seu estado de perturbação interior:

"Outra irmã minha, Leah, maldita seja, me fez aceitar isto. Ela é minha maldita inimiga. Eu a odeio. Meu Deus! Eu a envenenaria! Não, eu não, mas eu a açoitaria com a minha língua. Leah tinha 23 anos no dia em que eu nasci. A filha de Leah, Elisabeth, tinha sete anos no dia em que nasci. Rá, rá! Eu já era tia sete anos antes de ter nascido!" (RINN, 1954. p. 55)

O segundo motivo repousa na pressão que sofria por parte dos profitentes de religiões protestantes e católicas. Em sua retratação, Margareth refere-se à influência que sofreu de pessoas que tinham por interesse “esmagar o Espiritismo”. Conan Doyle chega a apresentar nomes de membros do clero que a fizeram crer que tratava com o demônio. Margareth houvera se convertido ao catolicismo alguns anos antes da declaração, o que foi confirmado por Rinn (1954), ao entrevistar um padre da igreja de São Pedro, em Barclay Street, Nova York.

Finalmente, houve a proposta financeira do jornal, interessado em um “furo” jornalístico, não importando se estaria ou não praticando “imprensa marrom”. As Fox viviam dos fenômenos que produziam, prática em que são criticadas até por Conan Doyle, que morava em um país onde a remuneração de médiuns é uma prática aceita.

Embora não tenha encontrado em minhas fontes uma transcrição exata da declaração de Margareth Fox-Kane, com base na correspondência de Kate, transcrita acima, ela parece ter “explicado” os fenômenos a partir da teoria dos “músculos estalantes”. No texto de Rinn (1954) se vê algumas outras explicações aos fenômenos. Ela dizia que os sons nas paredes do "cottage" de Hydesville vinham de maçãs que as irmãs deixavam cair, enganando seus pais, e que os fenômenos de escrita direta eram fraudados com um giz entre os dentes, enquanto os pesquisadores as retinham pelas mãos. Convenhamos que estas explicações, face aos relatórios de pesquisas realizados desde a demonstração em Rochester, são bastante insatisfatórias. Como elas teriam produzidos os sons nos vidros, paredes e papéis distantes de seus próprios corpos, estalando músculos? Como responderiam a perguntas mentais? Como forneceram respostas corretas a perguntas que desconheciam, como o número de conchas tomadas ao acaso de um montinho, por um de seus investigadores? Como elas teriam burlado os cuidados dos cientistas que as pesquisaram? Nada disto parece satisfatório, ainda que houvessem entremeado truques aos fenômenos, por razões financeiras.

Por fim, Margareth Fox-Kane retratou-se um ano depois, em 20 de novembro de 1889 em entrevista dada à imprensa de Nova York. Para que não reste dúvidas, transcrevo algumas partes.

“Praza a Deus (...) que eu possa desfazer a injustiça que fiz à causa do Espiritismo quando, sob intensa influência psicológica de pessoas inimigas dele, fiz declarações que não se baseiam nos fatos. (...)

Naquela ocasião (em que denunciou o Espiritismo) necessitava muito de dinheiro, e criaturas, cujo nome prefiro não citar, se aproveitaram da situação. Daí a embrulhada. Também a excitação ajudou a perturbar meu equilíbrio mental. (...)

Aquelas acusações eram falsas em todas as minúcias. Não hesito em dize-lo... (...) Nem todos os Hermrmans vivos serão capazes de reproduzir as maravilhas que se produzem através de alguns médiuns. Pela habilidade manual e por meio de espertezas podem escrever em papéis e lousas, mas mesmo assim não resistem a uma investigação acurada. A materialização está acima de seu calibre mental e desafio a quem quer que seja a produzir batidas nas condições em que as produzo.” (DOYLE, 1926. p. 108-109)

A partir deste momento ela se propôs a fazer conferências para “refutar as calúnias” que ela própria lançou contra o Espiritismo. Ela fez uma carta aberta ao público assinada de próprio punho diante de testemunhas como o Sr. O’Sullivan, Ministro dos Estados Unidos em Portugal durante vinte e cinco anos.

(continua no próximo boletim)

(Publicado no Boletim GEAE Número 454 de 29 de abril de 2003)