Cristianismo, Espiritismo e Mediunidade

Rogério Coelho

“Procuremos, acima de tudo, em favor de nós mesmos,
o privilégio de aprender e o lugar de servir”.
- Emmanuel

Jesus consolidou no Monte Tabor, juntamente com Elias e Moisés, sob os olhares perplexos de três discípulos, a Era do Espírito, na qual a mediunidade tem papel preponderante... De fato, nas primeiras e singelas comunidades cristãs, o intercâmbio entre encarnados e desencarnados se fazia intenso e proveitoso para ambos os lados.

Na falta de “O Livro dos Médiuns” que só chegaria neste Orbe quase dois milênios depois da vinda de Jesus, os cristãos primitivos recebiam orientações precisas de Paulo de Tarso, que, certa vez, escreveu aos coríntios, antecipando-se àquela excelente obra básica do Espiritismo: (I Cor., 12:1 a 11.)

“Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes. Vós bem sabeis que éreis gentios, levados aos ídolos mudos, conforme éreis guiados. Portanto, vos quero fazer compreender que ninguém que fala pelo Espírito de Deus diz: Jesus é anátema, e ninguém pode dizer que Jesus é o Senhor senão pelo Espírito Santo.

Ora, há diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo. E há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo. E há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil. Porque a um pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria; e a outro, pelo mesmo Espírito, a palavra da ciência; e a outro, a fé; e a outro, os dons de curar; e a outro a operação de maravilhas; e a outro a profecia; e a outro o dom de discernir os Espíritos; e a outro a variedade de línguas; e a outro, a interpretação das línguas...

No entanto, o mesmo poder espiritual realiza todas essas coisas, repartindo os seus recursos particularmente a cada um, como julgue necessário”.

Sem, embargo, conhecendo, o superlativo potencial da labilidade humana, Jesus previu o que os pretensos líderes religiosos fariam com a mediunidade. Por isso Ele prometeu o advento do “Consolador” [Espiritismo] para mais tarde. Ele sabia que as fogueiras e torturas da nada “Santa Inquisição” tentariam silenciar as vozes dos Céus.

Mas, como dizia o sábio fariseu Gamaliel: (Atos, 5:35 a 40.)

“O que é obra dos homens se desfará, mas nada pode desfazer o que é obra de Deus”.

Já dizia Kardec: “Contra a vontade de Deus não poderá prevalecer a má vontade dos homens”.

E a mediunidade permaneceu como ponte viva entre os dois mundos.

É fácil comprovar a ressonância dos ecos mediúnicos do Tabor nos arraiais espiritistas, afinal “O Livro dos Espíritos” foi todo composto com as vozes dos Imortais.

Os dons mediúnicos são preciosíssimas oportunidades de serviço, e o único privilégio que sancionam é o de servir e aprender.

Portanto, são injustificáveis as atitudes de endeusamento de médiuns e mais ainda o envaidecimento dos que são portadores dos dons mediúnicos.

Parafraseando Paulo de Tarso, diz Emmanuel,

(...) Cada médium é mobilizado na obra do bem, conforme as possibilidades de que dispõe: esse orienta, outro esclarece; esse fala, outro escreve; esse ora, outro alivia...

E aduz, com sabedoria, o nobre Mentor de Francisco C. Xavier:

De toda ocorrência, observa o préstimo.

Certos de que o pensamento é onda viva que nos coloca em sintonia com os múltiplos reinos do Universo, busquemos a inspiração do bem para o trabalho do bem que nos compete, conscientes de que as maravilhas mediúnicas, sem atividade no bem de todos, podem ser admiráveis motivos a preciosas conversações entre os esbanjadores da palavra, mas, no fundo, são sempre o exclusivismo de alguém, sem utilidade para ninguém.

Recurso psíquico sem função no bem é igual à inteligência isolada ou ao dinheiro morto: excelentes aglutinantes da vaidade e da sovinice!...

Em mediunidade, portanto, não te dês à preocupação de admirar ou provocar admiração. Procuremos, acima de tudo, em favor de nós mesmos, o privilégio de aprender e o lugar de servir”.

(Publicado no Boletim GEAE Número 379 de 11 de janeiro de 2000)