Das Trevas da Idolatria às Luzes da Espiritualidade

Rogério Coelho

“Jesus Se chamava a Si mesmo de Semeador, porque conhecia o lento processo da semeadura e da germinação das idéias”.
- Herculano Pires

Existe uma unanimidade em todas as ciências que estudam o homem e tudo o que se liga ao seu desenvolvimento: é a noção de que ele parte das formas inferiores da animalidade, até alcançar os níveis superiores da inteligência. Tal a interpretação que se pode depreender da psicologia, da biologia, da sociologia, da história, da antropologia, da arqueologia e da paleontologia. E onde todas essas ciências param, o Espiritismo desvela mais à frente o ainda imensurável panorama espiritual cujos acumes ainda nem de longe sonhamos perceber em toda sua pujança e extensão!... (Jesus se referiu a esse horizonte quando disse que lá teríamos Vida, mas Vida Abundante).

Os diversos patamares evolutivos que albergaram a Humanidade desde as mais prístinas eras são conhecidos entre os estudiosos do assunto como “horizontes”. O primeiro patamar evolutivo é conhecido como “horizonte agrário”, que se iniciou nos tempos que marcaram o início dos primeiros conglomerados tribais, quando o homem inicia seu estágio sedentário, depois de longo período de vida nômade. Seguiram-se os seguintes níveis: “Horizonte Civilizado”, “Horizonte Profético” e finalmente o “Horizonte Espiritual”.

Foi o próprio Cristo, com os pés plantados no “Horizonte Profético” Quem profetizou o advento do “Horizonte Espiritual”. Podemos flagrar tal profecia no transcorrer do diálogo estabelecido entre Ele e a mulher samaritana, à beira do Poço de Jacó, ao dizer-lhe que estavam próximos os tempos em que deveriam aparecer os verdadeiros adoradores do Pai que O adorariam em espírito e verdade e não mais em templos de pedra. Foi o golpe mortal que Ele deu para começar a demolição do carunchoso e inútil edifício da idolatria.

Nesse passo, vamos acompanhar o lúcido raciocínio de Herculano Pires (*1):

“(...) Jesus assinala o aparecimento do “Horizonte Espiritual”, marcando o início de um novo ciclo histórico no Ocidente. Com o Seu ensino , amplamente divulgado e aceito, as grandes concepções do passado, limitadas a pequenos círculos de iniciados ou eleitos, modelam uma nova mentalidade coletiva. O Deus-Pai de Jesus transcende o Deus-Familiar de Abraão, Isaac e Jacó e supera a natureza tutelar dessa concepção judaica. Por isso, o Deus evangélico não é guerreiro, mas amoroso e justo; não faz discriminações, não exige culto externo, não quer intermediários. Como Pai Universal, o antigo Javé tribal atinge dimensões cósmicas, é o Deus dos homens e dos anjos, da terra e das “outras moradas” que existem no Infinito.

Paulo, que exemplifica o drama da transição da consciência judaica para a cristã, adverte que Deus não deseja cultos externos, semelhantes aos dedicados às divindades pagãs, mas “um culto racional”, em que o sacrifício não será mais de plantas ou animais, mas da animalidade, ou seja, do ego inferior do homem.

A religião se depura dos resíduos tribais, despe-se dos ritos agrários e da complexidade que esses ritos adquiriram no “Horizonte Civilizado”. Torna-se espiritual. Os próprios apóstolos do Cristo não compreendem de pronto essa transição. Pedro chefia o movimento que Paulo chamou “judaizante”, tendendo a fazer do Cristianismo uma nova seita judaica. Mas Paulo é a flama que mantém o ideal do Cristo. Inteligente e culto, é um dos poucos homens capazes de compreender a nova hora que surge, e por isso o Cristo o retira das hostes judaicas, para colocá-lo à frente do movimento cristão.

A religião espiritual, desprovida de culto externo, iluminada pela razão, individualiza-se. O cristão não precisa do sacramento de um sacerdote, do beneplácito de uma igreja, mas tão-somente da pureza de sua própria consciência. O rito do batismo que Pedro exige dos novos adeptos, juntamente com a circuncisão, repugna Paulo, que o substitui pelo “batismo do espírito”, ou seja, a elucidação evangélica, seguida do desenvolvimento mediúnico. O mediunismo profético se generaliza, porque “o espírito se derrama sobre toda a carne”, e a fé iluminada pela razão, deixa o terreno primário da crença, para elevar-se ao da convicção, através do conhecimento direto da realidade espiritual, tão clara e positiva quanto a material. A mediunidade desenvolvida encoraja os apóstolos, que se mantêm em contato com as forças espirituais, para poderem enfrentar o poder temporal. Os mártires, os santos e os sábios encherão o mundo de espanto, com as luzes de uma nova e vigorosa concepção da Vida, que eleva o homem acima de si mesmo.

É evidente que tudo isso não se realiza de um dia para o outro, mas através de um lento processo de evolução social, econômica, cultural e espiritual. Jesus Se chamava a Si mesmo de semeador, porque conhecia o lento processo da semeadura e germinação das idéias. Sabia, também, que os princípios da Sua doutrina, do Seu ensino, teriam de sofrer as deformações naturais desse processo. Por isso anuncia, como vemos no Evangelho de João, a Vida do Consolador, do Paráclito, do Espírito de Verdade, incumbido de restabelecer a pureza da seara, separando o joio do trigo. O horizonte espiritual se abre em espirais crescentes sobre o mundo: primeiro, num círculo restrito de apóstolos e adeptos, oferece o modelo de uma nova ordem; depois, espalha-se pela terra, modificando as consciências, mas comprometendo-se com os elementos da velha ordem; por fim, domina o mundo, mas impregnado das heranças mitológicas; e só consegue romper as perspectivas apocalípticas de “um novo Céu e uma nova Terra”, através da Reforma e do Espiritismo.

Quando os homens atingiram o nível necessário de conhecimentos, para voltarem à verdadeira concepção cristã, tornando-se capazes de compreender o que o Cristo havia ensinado e o que não pudera ensinar na Sua época, segundo as Suas próprias palavras, então a revolta sacudiu a Igreja e o Espírito derramou-se fartamente sobre toda a carne. Lutero encarnou a luta contra o paganismo idólatra que invadira, como terrível joio, a seara cristã. Combateu corajosamente o comércio de indulgências. Reclamou e impôs a volta a Cristo e aos textos esquecidos do Seu Evangelho. Mas depois de Lutero viria o Espírito da Verdade, para impor o retorno não somente à letra, aos textos, e sim ao próprio espírito do Evangelho, à essência espiritual do Cristianismo. E Kardec iniciaria o grande movimento doutrinário de restabelecimento do ensino de Jesus, sob a égide da Falange do Espírito da Verdade.

É por isso que vemos, na propagação do Espiritismo, repetirem-se os milagres da fé e da coragem dos cristãos primitivos. Completa-se, com a era do Consolador, o ciclo espiritual iniciado há dois mil anos, pelo próprio Cristo. Os mártires se entregavam às chamas e às feras, porque sabiam existir uma realidade supraterrena, e não por apenas crerem nessa realidade. Entre os Espíritas veremos a mesma coisa. O escritor inglês Denis Bradley conclui o seu livro, “Rumo às Estrelas”, declarando peremptoriamente: “Eu não creio. Eu sei”. É essa convicção poderosa, resultante do desenvolvimento da mediunidade positiva, que faz o movimento espírita enfrentar todas as forças organizadas do mundo, desde o púlpito até à cátedra, para sustentar uma nova concepção da Vida e do mundo.

Kardec explica, em “A Gênese”, capítulo primeiro, por que o Espiritismo só poderia surgir em meados do século dezenove, depois da longa fermentação dos princípios cristãos da Idade Média e do desenvolvimento das ciências na Renascença. Escreveu ele:

“O Espiritismo, tendo por objeto o estudo dos elementos constitutivos do Universo, toca forçosamente na maioria das ciências. Só poderia, pois, aparecer, depois da elaboração delas. Nasceu pela força mesma das coisas, pela impossibilidade de tudo explicar-se apenas pela lei da matéria”.

Como se vê, da conjugação dos elementos materiais e espirituais, em evolução simultânea, resulta o clima que permite ao mundo atingir a plenitude do “Horizonte Espiritual”, onde a mediunidade positiva se torna a fonte de esclarecimento e orientação dos problemas do espírito. Graças a ela, o homem se emancipa da tutela dos ritos e cultos primários”.

*1 - Herculano Pires “O Espírito e o Tempo” – Capítulo V, item 4 - Edicel

(Publicado no Boletim GEAE Número 393 de 13 de junho de 2000)