Kardec, Chico e nós

Grupo de Estudos Avançados Espíritas

Caros Amigos,

Temos acompanhado as notícias sobre o aniversário de desencarnação de Francisco Cândido Xavier e recebido diversos e-mails perguntando sobre sua identificação com Allan Kardec. A questão é difícil de ser respondida sem uma pesquisa mais detalhada, que permita validar todas as evidências a favor e contra a hipótese do Chico ter sido Kardec reencarnado.

Há argumentos em favor da tese, principalmente pela forma extraordinária com que Chico exerceu o mediunato. Não seria possível ter realizado tal tarefa sem uma impressionante bagagem espiritual - tanto moral como intelectual - que servisse de base para facilitar a comunicação entre os dois planos da vida. Bagagem inconsciente, trazida de vidas passadas, de onde os espíritos comunicantes poderiam tirar os recursos necessários para transmitirem de forma segura os ensinamentos que marcaram a história do Espiritismo.

Por outro lado, a personalidade do "Mineiro do Século" parece muito diferente da personalidade do "Mestre de Lion". Chico representou a "caridade encarnada" para todos que dele se aproximaram, enquanto que o Codificador da Doutrina Espírita foi chamado de "razão encarnada" por seus biógrafos. Naturalmente as circunstâncias de cada vida poderiam ter influenciado o lado da personalidade que mais se destacou, mas isso precisaria ser investigado cuidadosamente antes de ser aceito como fato.

Deve-se notar também que o conjunto de espíritos iluminados que participou da Codificação Espírita não foi pequeno e não seria nada extraordinário que um deles tivesse retornado a Terra para colaborar na continuidade do trabalho iniciado por Kardec. Examinando bem a famosa mensagem de Zéfiro, transcrita abaixo, não é difícil de se chegar a conclusão de que a volta de Kardec só se dará no futuro, quando o Espiritismo se tornar uma filosofia religiosa mais difundida e a humanidade estiver pronta para novos ensinamentos.

Tudo isto deve ser pesado pelo pesquisador que buscar o esclarecimento da questão. Também devem ser analisadas outras comunicações mediúnicas que possam trazer contribuições ao estudo proposto. Lembrando-se apenas que - conforme está explicado no Livro dos Médiuns - uma informação transmitida mediunicamente deve passar pelo crivo da razão e do consenso antes de ser aceita como um fato.

Enquanto a questão não for decidida pela pesquisa, a prudência recomenda deixá-la para o foro íntimo de cada um. Uma hipótese, que pode ser verdadeira ou não, que deve ainda passar pelo teste do estudo científico e da prova do tempo. Até seria recomendável considerá-la como "não aceita", pois, como Allan Kardec nunca deixou de frisar, na ausência de provas convincentes sempre é melhor rejeitar várias hipóteses verdadeiras do que aceitar uma única falsa. E a hipótese discutida tem forte peso emocional, pela grande estima que os espíritas e os brasileiros dedicam ao notável missionário da caridade, o que justifica o uso da prudência.

Uma aceitação prematura poderia trazer alguns inconvenientes, seja dando argumentos aos detratores da Doutrina pela facilidade com que tal proposta foi aceita, seja levando alguns companheiros a tirarem conclusões apressadas do fato e passarem a considerar Chico como um ente diferente dos demais espíritos. Não seria grande surpresa esta linha de raciocínio, considerando os precedentes históricos. Grandes vultos das diversas religiões e filosofias espiritualistas do passado foram aos poucos - pela ação bem-intencionada, porém equivocada, dos seus admiradores - perdendo sua dimensão humana. Deixaram de ser exemplos a serem seguidos para tornarem-se objetos de devoção.

Esta posição - de dúvida moderada - nos parece a melhor, principalmente porque em nada afeta a qualidade da obra de Francisco Cândido Xavier este ter sido Kardec ou não.

Muita Paz,

Os Editores

Mensagem de Zéfiro sobre a reencarnação de Allan Kardec

Recebida em sessão na casa do Sr. Baudin pela médium Srta. Baudin em 17 de janeiro de 1857

(Mensagem transcrita do texto "Primeiro Anúncio de uma nova Encarnação", pág. 241, que se encontra no livro "Obras Póstumas", trad. Sylvia Mele Pereira da Silva, da coleção das obras completas de Kardec publicada pela EDICEL. Os grifos são nossos)

Caro Amigo, não quis escrever-te na terça-feira passada, na presença de todos, porque há certas coisas que só devem ser ditas entre nós.

Queria, primeiramente, falar a respeito de tua obra, aquela que mandaste imprimir. (O Livro dos Espíritos tinha ido para o prelo). Não te esforces tanto, noite e dia, Sentir-te-ás melhor e a obra não perderá nada por esperar.

Pelo que vejo tens bastante capacidade para levar a bom têrmo a empresa e fôste chamado para realizar grandes coisas. Mas não exageres: vê e aprecia tudo sã e friamente. Não te deixes levar pelos entusiastas e precipitados. Calcula bem todos os teus passos e tuas atividades para que possas atingir o objetivo com segurança. Só acredita no que vires. Não te desvies do que te parecer incompreensível. Saberás mais que qualquer outro, porque os assuntos de estudo serão postos sob os teus olhos.

Mas, ah ! Infelizmente a verdade não será conhecida e aceita por todos senão daqui a longo tempo. Nesta existência só verás a aurora do sucesso de tua obra. Será preciso que voltes, reencarnado em um outro corpo, para completar o que tiveres começado, e terás então a satisfação de ver em plena frutificação a semente que tiveres espalhado na Terra.

Terás invejosos e competidores que procurarão denegrir-te e combater-ter. Não desanimes; não te inquietes com o que disserem ou fizerem contra ti: prossegue tua obra; trabalha sempre pelo progresso da Humanidade e será amparado pelos bons Espíritos enquanto perseverares no bom caminho.

Lembras-te de que há um ano prometi minha amizade àqueles que, durante o ano, tivessem se mantido de maneira conveniente em toda sua conduta ? Pois bem ! Anuncio-te que és um dos que escolhi entre todos.

Teu amigo que te ama e protege,

Z.

Da nota de Herculano Pires sobre a mensagem: Z. ou Zéfiro era o protetor da família Baudin e estava naturalmente ligado ao trabalho de Kardec (...). As meninas Baudin tiveram a missão mediúnica de receber "O Livro dos Espíritos". Bastaria isso para mostrar que Z. estava encarregado de trabalho bastante sério (...) Quanto à nova encarnação de Kardec, embora existam muitos candidatos ao pôsto em nossos dias, é evidente que é ainda muito cedo. Zéfiro anunciou que ele voltaria para completar o que havia começado. Mas a verdade é que só agora a obra de Kardec começa a ser estudada a sério e tem ainda muito a nos dar, para depois, só depois, poder ser completada.

(Publicado no Boletim GEAE Número 460 de 29 de julho de 2003 )