O Bem enquanto princípio educativo

Luciano Bomfim

Nos ensinamentos de São Francisco de Assis, encontramos uma assertiva que decisivamente marcou seu pensamento: "é dando que se recebe". Tal idéia está presente em toda mentalidade judaico-cristã. O cristão deve fazer o bem porque desta forma ele terá o bem de retorno em sua vida, mesmo que em um futuro desconhecido. Ajudar o próximo, praticar a solidariedade, a indulgência, a tolerância, perdoar as ofensas e agressões que sofremos, seriam assim, moedas com a qual compraríamos o nosso bem estar futuro: A forma de nos livrarmos do inferno e adquirirmos o cartão de entrada no céu.

Mas qual é o fundamento deste princípio? A prática do bem funcionaria como uma espécie de bônus positivo para quitar débitos contraídos com a prática do mal ou para nos livrar do tormento de uma experiência cármica ou não, ou então, em ser agraciado com a gratidão devida por cumprirmos com o nosso dever de cristão. O ser humano seria assim uma espécie de ser pragmático em busca de sua própria felicidade, de uma paz pessoal, com uma vida, cujo deleite está em evitar o sofrimento. O risco de refletir suas experiências, de ousar pôr-se enquanto sujeito de suas decisões, de permitir-se um ser que pode errar, que o erro é conseqüência do seu estado de imaturidade espiritual, psíquica, emocional, intelectual e mental; estado este inerente ao ser eternamente em processo educativo, um ser em constante evolução.

Admitir a inexorabilidade do bem para a evolução não significa defender a tese do bem enquanto algo auto-explicado e o ser humano enquanto objeto de sua inexorabilidade. Que conteúdo ganha o ser humano em fazer o bem para não sofrer, ou para ganhar a felicidade no futuro, melhor dizendo, num futuro desconhecido? Que aprende o espírito que pratica o bem sob esta perspectiva? Que tipo de enfrentamento tem ele consigo mesmo, digo, com suas aflições, seus complexos, traumas, desajustes diversos; enfim com suas imperfeições? Fazer o bem não pode ser um ato de violência para consigo próprio, não pode ter como pressuposto-imperativo a não reflexão do ser-em-tensão imerso na materialidade histórica de suas reencarnações, não pode prescindir do pensar a situação presente que desafia o ser inteligente a decidir na sua postura diante da vida, diante dos demais seres, diante de sua própria espécie; pois o bem tem como pressuposto a consciência. O ser encarnado ou não, é como já dissemos um ser inteligente, e sendo assim, o bem para ser bem, para ter eficácia no espírito praticante, imprescinde de um conteúdo pedagógico cujo fundamento está justamente no porque de fazer o bem. E a prova da existência deste conteúdo no agir de uma suposta atitude benéfica, está na possibilidade objetiva, axiologicamente construída em-si pelo ser inteligente, de uma determinação educativa do bem sobre si.

A atitude exteriormente de acordo com as leis da vida não tem por si próprio o poder de desencadear um aprendizado que impulsione o espírito na sua evolução. O bem é produção do ser humano; não é uma manifestação no espírito que prescinda de sua condição de ser consciente, de ser que sabe, que pode saber, de ser que reflete.

Em resumo, que aprendemos concretamente com o bem que fazemos? Que nosso sofrimento será amaciado por ele; que nossa felicidade(futura!) será um presente da divindade a nós, prescindindo assim da determinação educativa do agir benéfico sobre nós? Educar-se com o bem significa muito mais do que ter uma práxis benevolente com os seres à nossa volta; significa mais do que fazer o bem por querer fazê-lo; significa em última instancia apreender os ensinamentos constituintes do nosso agir benevolente; significa aprender as lições que nele estão presente. Entender que o bem não pode ser uma rua de mão única, na qual só a outra parte é beneficiada.

"Eu" preciso "me" beneficiar com a "minha" atitude, aprender com ela, "me" fortalecer axiologicamente com ela. Passar segurança às pessoas é um bem, mas se com isto "eu" também procuro educar-"me", construindo segurança em "mim" mesmo;. Falar de tolerância e indulgência com aqueles que estão se movendo pelo ódio e sentimento de vinganca é um bem ,se "eu" trabalho na edificação da paz em "mim". Socorrer os espíritos em sofrimento nas mediúnicas é um bem, se eu "me" coloco no aprendizado do equilíbrio em "minha" cotidianidade. Orientar o individuo em desajuste psiquico-espiritual é um bem, se "eu" também me coloco no aprendizado dos fundamentos de uma mente que procura reconhecer seus limites de investigação e os pressupostos para a constante vigília dos princípios cristãos em nós. Fazer o bem é também em última instancia, se convencer axiologicamente dele; é refletir sobre o quanto nos tornamos internamente melhores pelo "bem" que fazemos; é apreender e aprender a nos tornarmos internamente melhores com aquilo que fazemos, e sob esta perspectiva nos auto-avaliarmos em nossa prática espírita, crista; é replanejar o nosso porvir a fim de nos mantermos rumo à felicidade que tanto desejamos, e que de fato só existirá, se já existir, pois a felicidade não é uma inexorabilidade evolutiva, ela é produto de uma práxis, de um sujeito que quer ser feliz e trabalha para isto. Ser feliz é pensar em como o bem pode nos fazer feliz e aprender com a verificação da praxis correspondente a ele.

(Publicado no Boletim GEAE Número 312 de 29 de setembro de 1998)