Uma entrevista com Léon Denis

Débora Vitorino

Léon Denis (1846-1927), um dos maiores e melhores escritores espíritas que já existiram, atualmente, é conhecido por poucos no movimento espírita. No entanto, não era assim há pouco mais de cem anos atrás. Seus livros eram lidos por muitos e responsáveis por inúmeras conversões ao Espiritismo em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. Como escritor e orador espírita, ele abriu mão de sua paz e tranqüilidade para divulgar e defender a Doutrina Espírita.

Participou de seis congressos internacionais: três espiritualistas e três espíritas. Ficou conhecido como “Apóstolo do Espiritismo”. E colaborou, até o ano de sua morte, com artigos na Revista Espírita e em outros periódicos espiritualistas. Algumas vezes, escrevia sobre o tema de certa obra em seus artigos, antes que ela fosse elaborada e viesse a público. Noutras, o tema do livro era abordado em suas palestras.

É surpreendente saber que apesar de todas as dificuldades de sua vida, Denis adquiriu, à custa de muito esforço, uma vasta cultura que causava admiração a quantos o conheciam. Era também, dono de uma prodigiosa memória, que lhe permitia, mesmo quando mais velho e cego, descrever suas lembranças nos mínimos detalhes.

Léon Denis é autor de vasta e notável obra que vale a pena ser conhecida, pois representa o fruto de incansáveis estudos e traz informações e alertas, importantes para o movimento espírita: fatos e pesquisas ocorridos à época da elaboração de cada livro ou artigo.

Por isso, e também devido ao estudo de sua biografia, nasceu nosso interesse em conhecer algumas de suas obras, as menos divulgadas e que, somente há pouco tempo, voltaram a ser traduzidas e publicadas pelo Centro Espírita Léon Denis – CELD (RJ), como uma forma de homenagem ao seu patrono.

Outra razão que suscitou a curiosidade sobre essas obras, foi um estudo a respeito de O Porquê da Vida, livro publicado no Brasil desde o início do século XX. As edições brasileiras trazem, junto com a obra original, textos de autoria de Denis e de outros escritores. Isso dificulta saber o que faz parte de alguma obra sua ou o que era um texto ou artigo independente e, até mesmo, quando foi escrito.

Como forma de tornar mais agradável a abordagem do resultado desse garimpo, bem como a apresentação das obras, simularemos uma entrevista com o próprio Denis sobre suas obras: O Progresso, O Porquê da Vida, O Espiritismo e as Contradições do Clero Católico. E, ao final, comentaremos algo a respeito de Síntese Doutrinária e Prática de Espiritismo.


1) Quando se tornou espírita, Sr. Denis?
“Quando tinha 18 anos. Eu sempre gostei de namorar vitrines de livrarias e, nessa época, deparei-me com O Livro dos Espíritos, cujo título achei muito curioso e perturbador. Comprei-o e nele encontrei as respostas que buscava.”

2) Quando se deu sua estréia como escritor e conferencista espírita?
“O primeiro livro, O Progresso, foi publicado em 1880 e a primeira conferência espírita foi realizada em 1882. Até então, as conferências que fiz eram relacionadas à minha participação na Loja Maçônica dos Demófilos e na Liga do Ensino.”

3) Então, O Progresso foi escrito antes da carreira como orador espírita? Como escolheu o tema?
“Na verdade, não era planejada a sua publicação, que só ocorreu por insistência do público. As conferências nas duas instituições que citei sempre versavam sobre temas variados que suscitavam discussões e que, mais tarde, seriam aprofundados nas conferências espíritas, livros e artigos. Esse é também um tema que se relaciona à busca do homem por respostas para suas maiores indagações e dúvidas.”

4) Fale-nos um pouco sobre O Progresso.
“No livro, atenho-me ao progresso das idéias e instituições, pois o progresso material pode ser observado por todos. Tento mostrar que o progresso é uma lei natural, que o homem pode obstar, através de suas escolhas, mas que não pode deter. E também, que cabe a ele consultar sua consciência para saber como nortear seus atos, no sentido de progredir e colaborar na construção de um mundo melhor.”

Essa obra de Léon Denis foi editada pelo Centro Espírita Léon Denis, em 1995. Não é extensa, por se tratar de um discurso pronunciado por ocasião da inauguração de Círculos da Liga do Ensino em algumas cidades francesas. Sua publicação só foi possível porque Denis tinha o hábito de escrever seus discursos; costume que os Instrutores Espirituais haviam sugerido que adotasse.

É de fácil leitura e compreensão podendo ser indicado, especialmente, a principiantes da Doutrina Espírita. Para os veteranos, representa uma boa oportunidade de tomar contato com o pensamento desse grande escritor espírita.

5) E quanto a O Porquê da VidaSolução Racional do Problema da Existência? Quando foi editado e qual o tema central?
“Ele foi publicado em 1885. O tema central é a busca de respostas para dúvidas como: quem somos, de onde viemos, para onde vamos, qual o objetivo da vida. Nesse livro, parto do pressuposto de que todo homem empreende tal busca. E, justamente, porque estamos numa época em que, por instinto, quer-se progredir, sem se saber para onde ir, é extremamente necessário que o homem encontre tais respostas. A fim de se conduzir na vida sem medos, incertezas e indecisões, marchando confiante em direção a um futuro melhor que cabe a ele construir e pelo qual é responsável.”

Esse livro1 é escrito em linguagem simples e acessível, sendo também aconselhável aos neófitos da Doutrina. Seu objetivo é minorar a dor dos sofredores, aos quais o livro é dedicado. De forma leve e agradável, Denis procura demonstrar, ao longo de sua argumentação, que o Espiritismo é a maior força contra o materialismo, pois está fundamentado em fatos, submetidos a certas leis, até então desconhecidas. Desse modo, ele vai apresentando o leitor à Doutrina Espírita: princípios, racionalidade, consolo, etc.

6) Como surgiu Giovanna 2?
“Essa é uma novela espírita baseada nas viagens que fiz a serviço da casa comercial em que trabalhava. Ela se passa na Itália e conta a história de dois jovens que descobrem ter muitas idéias e dúvidas em comum, relacionadas à imortalidade, reencarnação, justiça, progresso, etc.”

Essa novela foi publicada, provavelmente, em 1880. A princípio surgiu sob a forma de folhetim num periódico chamado Paz Universal e, mais tarde, saiu na Revista Espírita, sob pseudônimo. À época de sua publicação já havia escritores especializados nesse tipo de literatura espírita que obtinham grande sucesso.

7) Por que foi escrito O Espiritismo e o Clero Católico 3? E do que ele trata?
“Ele veio a lume devido aos ataques do clero à Doutrina Espírita, através de artigos em periódicos católicos. Em geral, tais artigos apresentavam as práticas e princípios espíritas como sendo obra do demônio, associavam a reencarnação à metempsicose e diziam que os espíritas tinham o diabo no corpo. Por se tratar de uma história antiga e repetitiva, em contraponto a essas acusações, apresento opiniões de clérigos católicos de renome, antigos e atuais, que crêem na possibilidade da comunicação com os Espíritos e na reencarnação, além de fatos ocorridos na história da própria Igreja que atestam a veracidade dessas idéias.”

Essa brochura representou uma resposta de Denis aos ataques que parecem ter recomeçado em abril de 1917, em periódicos mensais católicos da França (L’Ideal, Libre Parole, Revue des Jeunes). Conforme se pode observar através das notas de rodapé, o livro parece ser uma síntese de vários artigos escritos na Revista Espírita, desde junho de 1917.

Não foi possível determinar, com precisão, a data de sua elaboração nem de sua publicação, que podem ter ocorrido ainda durante a I Guerra Mundial. A edição de 1919, publicada pela FEB, apresenta 1918 como data da elaboração: “Nesta hora (1918) em que a tormenta se abate com violência sobre o nosso país...” 4.

Na edição de 1995, pelo CELD, que mantém o título e a divisão originais da obra, acredita-se que a publicação se deu em 1923 e a elaboração, em 1921. Isso talvez seja devido ao fato de que tanto na edição do CELD quanto numa edição francesa de 1923 não aparece a data 1918.

Por isso, não podemos concordar com a afirmativa da equipe do CELD em relação às datas de publicação e de elaboração do livro, visto que já havia uma tradução para o português em 1919. Nem mesmo Gaston Luce, biógrafo de Denis cita uma data específica. Portanto, seria necessário ter acesso à primeira edição, se ainda existir, para podermos afirmar qual data seria correta.

Nosso primeiro contato com a Síntese Doutrinária e Prática de Espiritismo 5 foi através de um exemplar publicado na Argentina, em 1940. Mais tarde, encontramos uma edição publicada pelo Instituto Maria.

O livro é dedicado às crianças e adultos ainda não iniciados em Espiritismo. Por isso, o autor parte do raciocínio concreto para o abstrato, isto é, do homem para Deus. Sua forma é dialogada, a fim de facilitar a compreensão por parte daqueles que desconhecem a Doutrina.

Embora seus biógrafos, Baumard e Luce, não mencionem a “Síntese...” no rol de suas obras; uma publicação francesa de “O Espiritismo e o Clero Católico”, de 1923, cita-a numa lista de livros de autoria de Denis.

Esperamos que essas páginas, de alguma forma, sirvam para incentivar os espíritas a estudarem e discutirem os vários livros e artigos de Léon Denis; principalmente, porque essa atitude representa uma boa maneira de saber mais a respeito dos pioneiros da Doutrina Espírita. Oxalá, ela se estenda aos demais grandes escritores espíritas, estrangeiros e brasileiros, como um modo de prestar-lhes homenagem pelo seu legado ao movimento espírita: Delanne, Flammarion, Cairbar Schutel, Deolindo Amorim, Carlos Imbassahy, Leopoldo Machado e inúmeros outros, inclusive os nossos contemporâneos.

1. A comparação entre duas edições de O Porquê da Vida, uma de 1928 e outra de 1989, mostra-nos que à obra original foram juntados textos do próprio Denis e de outros autores. Embora fosse explicado, no prefácio do tradutor, que Giovanna, Correspondência de Laváter e Catecismo Espírita – este só aparece na edição de 1928 - foram adicionados com o consentimento de Denis, nada se diz sobre a inclusão de A Reencarnação e a Igreja Católica e do Método de Investigações Espíritas, de Stainton Moses – que também só figura na edição de 1928 – nem sobre os motivos dessa ação.
Sendo assim, o original de O Porquê da Vida é composto somente pela primeira parte das atuais edições brasileiras, aquela que não possui título e é dividida em itens.

2. No Brasil, Giovanna aparece inserida na edição de O Porquê da Vida.

3. A segunda parte dessa obra encontra-se inserida na edição brasileira de O Porquê da Vida. No Brasil, ela também foi publicada com o título O Espiritismo e as Contradições do Clero Católico.

4. Página 11, da edição de 1919, FEB.

5. Grande confusão existiu com relação a uma obra chamada Catecismo Espírita, que se atribuiu a Denis. Porque na introdução de Síntese Doutrinária e Prática de Espiritismo, o autor usa a palavra “catecismo” algumas vezes.
Ambas foram escritas sob a forma de diálogo. Entretanto, num artigo do Reformador, o prof. José Jorge esclarece que Catecismo Espírita baseia-se em O Livro dos Espíritos e apresenta mais uma centena de perguntas e respostas relativas à Doutrina Espírita.
No mesmo artigo, ele cita uma notícia da coluna Bibliografia, da mesma revista, datada de julho de 1896, em que o articulista se refere a uma obra lançada em Buenos Aires, intitulada Catecismo Espírita, Filosófico y Moral de autoria de José Casanovas Moure. A estrutura de ambos os “catecismos” parece ser a mesma.

Bibliografia:

(Publicado no Boletim GEAE Número 442 de 13 de agosto de 2002)