União sem religião?

José Reis Chaves

De 12 a 19 de maio corrente, o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (CONIC) está celebrando mais uma semana de orações para a unidade cristã.

O ecumenismo exige, na prática, a renúncia incondicional a si mesmo, sine qua non, tudo ficará só na boa vontade e no âmbito da fala oral e escrita, nunca se chegando a um só rebanho e a um só pastor. E a renúncia a si mesmo é doutrina evangélica, e baseia-se na caridade e humildade. Mas os teólogos cochilaram em cima disso, e é também o que de mais carecemos. Segundo o Bhagavad-Gîtâ, o nosso ego é o maior inimigo de nosso Eu Superior e, semelhantemente, Jesus no-lo diz também: Quem quiser ser meu discípulo, renuncie-se a si mesmo. Quem quiser ser o melhor, que seja o maior servidor de todos.

Com efeito, o ecumenismo é, na prática, o que menos existiu no passado, e menos existe hoje entre as religiões. E a causa disso está no sectarismo dos adeptos de todas elas, sectarismo este oriundo do nosso ego. E é interessante que observemos que é nas questões secundárias que estão as causas das divergências que separam as religiões, já que nas principais, todas se entendem.

Assim é que, quando se fala na fundamental verdade de que Maria de Nazaré é Mãe de Jesus, católicos, evangélicos e espíritas estão de mãos dadas. Mas quando se discute, por exemplo, se ela teve ou não outros filhos, o que, a nosso ver, é de somenos importância, está formada uma polêmica entre católicos e evangélicos..

A própria Igreja tem hoje suas divisões teológicas internas. Algumas livrarias católicas oficiais trabalham com livros de autores budistas, islâmicos e outros, e, no entanto, se recusam a trabalhar com livros de alguns autores católicos. Talvez digam que esses livros de certos autores católicos possuem vírus heréticos.Mas o Apóstolo Paulo afirmou que as heresias são necessárias.

Ao afirmar no passado que só ela salvava, a Igreja dificultava a unidade cristã.. Temos que desculpá-la por isso, em virtude da mentalidade atrasada dos teólogos daquela época. Isso se repete hoje, ainda, nas Igrejas Evangélicas. E até 1980, a Igreja caluniava os espíritas, tachando-os de feiticeiros, ignorantes e charlatões. E muitos pastores ainda dizem isso hoje. E alguns padres alegam que os espíritas não são cristãos, simplesmente porque eles não aceitam a tese politeísta de Santo Atanásio de que Jesus é outro Deus, doutrina combatida por Ário, e que sempre foi polêmica entre os cristãos. Esses líderes religiosos esquecem-se de que Jesus disse que os seus discípulos seriam conhecidos pelo que eles fizessem, ou seja, amando-se uns aos outros, e não, portanto, pelo tipo de crença que tivessem.

Como, pois, se fazer ecumenismo com líderes religiosos desse gênero, julgadores e plenificados de seu ego, ao invés da humildade e da caridade?

Em virtude dessas posições radicais e egoístas de alguns líderes religiosos e seus sectários, o ficar a uma certa distância da nossa religião, apesar de estranho, é justamente o que, muitas vezes, nos pode levar ao verdadeiro ecumenismo!

Autor do livro, entre outros, “A Face Oculta das Religiões”, editora Martin Claret, SP. E-mail: escritorchaves@ig.com.br