A arte de formar caracteres

Terezinha Colle

A prática e as pesquisas realizadas por psicólogos demonstram a necessidade de se repensar a questão da educação dos filhos.

Depois que as experiências provaram que o método do autoritarismo, aplicado por nossos pais, estava ultrapassado e de certa forma ineficiente, optou-se por outro método menos eficaz e até danoso: o da "liberdade sem responsabilidade".

Considerada por alguns psicólogos como prejudicial ao desenvolvimento sadio da criança, a palavra "não" foi banida do vocabulário de muitos pais, que hoje amargam profundamente a total falta de controle sobre a prole.

Inadvertidamente e sem exames mais acurados, os pais modernos aceitaram a filosofia do "tudo pode", não levando em conta a necessidade de se estabelecerem limites para que haja harmonia dentro do lar.

Depois de perder o controle da situação, muitos apelaram para outro método desastroso: o da barganha.

Impotentes diante da teimosia dos filhos, criados sem as normas básicas de disciplina, os pais se perdem nos labirintos das "compensações", em que tudo é negociado.

Se é hora de ir para a cama e o filho não obedece, a mãe logo lança mão de algum motivo para a "negociata": "se você for dormir, a mamãe deixa você jogar aquela fita de ‘game’ violenta, que você tanto gosta".

Nesse caso, bastaria que a mãe, consciente da sua missão de educadora, tomasse seu filhos pela mão e o conduzisse com carinho e firmeza para a cama.

Ou, ainda, se é hora do banho e o "anjinho" faz corpo mole, a mãe logo faz outro "trato", esquecendo-se de que quanto mais se negocia com a criança, mais ela exigirá para fazer o que é sua obrigação.

Alguns psicólogos defendem a volta do autoritarismo na educação dos filhos, mas isso já ficou provado que não dá bons resultados. Seria "domesticação" ao invés de educação

Considerando-se que a educação, segundo Allan Kardec, no comentário da questão 685a, de O Livro dos Espíritos" é a arte de formar caracteres, temos de convir que a barganha somente servirá para "deformar" os caracteres dos nossos educandos.

Ademais, se levarmos em conta que nossos filhos são Espíritos encarnados que vêm do espaço para progredir, trazendo em si mesmos as experiências transatas, boas ou não, entenderemos que a grande missão dos pais é ensinar-lhes a dignidade, não pelo autoritarismo, mas pela autoridade moral, isto é, ensinar pelo exemplo.

Nossos filhos não aceitam somente o "não" como resposta. Eles merecem e precisam de uma explicação coerente. Não falamos de justificativas, mas de diálogo.

Se existe um horário para dormir, se é preciso tomar banho, se não se pode comprar esse ou aquele brinquedo, a criança tem o direito de saber porquê.

Dizendo, por exemplo, que não podemos comprar o brinquedo que ela tanto quer porque o orçamento não comporta, ela entenderá, ao passo que se dissermos um "não" somente, ela ficará revoltada por pensar que não compramos por má vontade.

Tudo isso requer muito investimento, que não quer dizer "perda de tempo", como muitos pais afirmam. Investimento de tempo, paciência, afeto e carinho. A tarefa não é tão difícil e certamente é mais eficaz.

Como espíritas, deveremos ter sempre em mente a advertência de Santo Agostinho, em O Evangelho Segundo o Espiritismo: "Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe perguntará Deus: Que fizestes do filho confiado à vossa guarda? Se por culpa vossa ele se conservou atrasado, tereis como castigo vê-lo entre os Espíritos sofredores, quando de vós dependia que fosse ditoso."

Nossos filhos não aceitam somente o "não" como resposta. Eles merecem e precisam de uma explicação coerente.

(Jornal Mundo Espírita de Março de 1998)