A Letra que Mata

Paulo Alves de Godoy

"Para que sirvamos em novidade de Espírito e não na velhice da letra".
(Romanos, 7:6)

Em sua famosa Epístola aos Romanos, afirmou Paulo de Tarso: "Morremos para aquilo em que estamos retidos", acrescentando logo a seguir: "Para que sirvamos em novidade de Espírito, e não na velhice da letra".

Esta afirmação do apóstolo equivale a esta outra, também exarada no livro dos Atos dos Apóstolos: "A letra mata e o Espírito vivifica", com a significação de que, tanto nos livros dos profetas como nos Evangelhos, devemos deixar de lado a interpretação segundo a letra, para nos atermos tão-somente ao significado segundo o espírito.

Ao contrário do que sucedeu com os apóstolos diretos de Jesus, Paulo de Tarso, assim que travou conhecimento com os ensinos da Boa Nova, deixou para trás todos os preconceitos e o apego às vãs tradições, para abraçar incondicionalmente os imorredouros preceitos legados por Jesus Cristo.

Enquanto alguns dos apóstolos praticavam o batismo de água, Paulo proclamava que "não veio para batizar mas sim para evangelizar". Enquanto os apóstolos, ainda apegados às tradições da circuncisão, alimentavam sentimentos favoráveis à continuidade dessa prática, ele combatia frontalmente tudo aquilo que viesse a favorecê-la, não hesitando mesmo em enfrentar o Apóstolo Pedro, na cidade de Antióquia, refutando os ensinamentos do velho apóstolo e dizendo que "eles eram preceitos de homens e não de Deus".

Na realidade, não se pode apegar ao formalismo das letras, mas é necessário extrair delas o Espírito que vivifica. É imperioso que assim suceda, pois, do contrário, cairemos nos mesmos erros dos nossos antepassados.

Quando Jesus Cristo afirmou: "eu e o Pai somos um", ele não pretendeu dizer que isso implicava numa aberrante trindade, onde ele, como filho, era parte integrante do Pai. O sentido de suas palavras foi de dizer que entre ele e o Pai existe perfeita identidade, tendo por isso se convertido num seu autêntico mensageiro na Terra. Ele executou a vontade do Pai, mas deixou bem claro a sua dependência dele, e mesmo a sua submissão. Para ilustração mencionemos apenas a sua oração no Horto das Oliveiras, quando disse: "Meu Pai, seja feita a tua vontade e não a minha".

Aqui também cabe um esclarecimento sobre as palavras que abrem o Evangelho de João: "Deus nunca foi visto por alguém. O Filho Unigênito que está no seu seio, esse o fez conhecer". (João, 1:18).

Ora, não se pode conceber a idéia de ser Jesus o Unigênito de Deus, uma vez que isso implicaria na crença de ser ele o Filho único, o único gerado por Deus.

O próprio Cristo desmente esse conceito quando, em Espírito, disse a Madalena, segundo o que está explícito no próprio Evangelho de João: "Não me detenhas porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos, e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus". (João, 20:17).

Neste último trecho evangélico ficou bem evidenciado que Deus é Pai de todos, que todos são seus filhos, desde os mais bondosos, que são denominados santos, até os mais maldosos, que são chamados demônios.

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"Morremos para aquilo em que estamos retidos" significa dizer que, devido ao excessivo apego ao formalismo da letra, fica retida a evolução do Espírito vivificante, por isso é necessário morrer para aquilo que retém o nosso progresso espiritual, a fim de viver para as coisas novas e retumbantes, que na realidade alçam os nossos Espíritos para Deus, enquadrando-os na célebre sentença de Jesus Cristo: "Conheça a verdade e ela vos fará livres".

(Jornal Mundo Espírita de Novembro de 1997)