Como a Criança Pensa

Marlene Fagundes Carvalho Gonçalves

Será que a criança pensa como a gente, nos seus primeiros anos de vida? Nosso pensamento é predominantemente verbal, pensamos como se falássemos para nós mesmos, em voz baixa. Será assim também que a criança pensa? Que instrumentos ela tem, desde o início de sua vida aqui conosco, para pensar?

Piaget foi um dos teóricos que nos mostrou de forma extremamente meticulosa e interessante estas coisas que acontecem no desenvolvimento intelectual durante a infância, e a partir destes conhecimentos podemos entender mais profundamente este processo.

O que se sabe hoje é que a criança, ao nascer, já tem certas capacidades inatas, ligadas à própria sobrevivência, tais como os atos reflexos de sugar e engolir. Sabemos que tem o movimento e que seus sentidos, ainda que de forma meio rudimentar, já estão presentes. Sabe-se ainda que o meio-social e cultural em que ela se insere é que vai dar as primeiras coordenadas para seu desenvolvimento. Estes são os instrumentos que recebe ao nascer e que, a partir deles, ela vai começar a (re)construir-se como pessoa humana.

Considerando o Espírito como imortal, e sabendo de sua longa experiência anterior, ao nascer aqui ele submete-se a estas novas condições, passando por este processo de reconstrução a cada nova experiência, o que lhe é extremamente positivo.

Antes de dominar bem a linguagem, o pensamento da criança apóia-se em outros elementos para desenvolver-se, tais como as próprias sensações ligadas aos sentidos. O pensamento é mais global, no sentido de representar mentalmente cada experiência, apreendendo a imagem, o cheiro, o gosto, as sensações... Cada experiência vivida, cada idéia, cada objeto novo conhecido vai ganhando uma imagem mental...

Um exemplo bem ilustrativo dessa situação, e vocês devem ter vários também, é o de uma criança de aproximadamente três anos, que queria ir ao “clube do sapato”, e pedia insistentemente à mãe que a levasse. Ninguém compreendia o que esta menina queria, e que lugar era esse, até que se descobriu que o tal clube era, na realidade, o “tênis clube”. Ora, o que aconteceu? Provavelmente a menina, ao ouvir pela primeira vez o nome do clube, mentalizou-o na forma das imagens conhecidas por ela, no caso o tênis (como sapato) e um clube. No momento de transformar novamente em linguagem aquela imagem por ela reconstruída, houve uma pequena alteração, suficiente para dificultar o entendimento dos adultos à sua volta.

O surgimento da linguagem representa um salto enorme no desenvolvimento infantil, pois amplia-se a capacidade de comunicação, organização das idéias e reflexão. A linguagem, com todas estas vantagens citadas, não se apresenta numa forma única. Há a fala verbal ou oral, mas há também a linguagem gestual, escrita, etc. É ela que marca o início da possibilidade de representar, de usar mediadores entre ela própria e o mundo, como nos ensinou Vygotsky. Ao aprender e dominar a linguagem (principalmente a verbal, para as pessoas sem deficiência auditiva ou de fala) a criança vai internalizando-a, formando assim este pensamento verbal que nós temos hoje (o pensamento das pessoas surdas-mudas constitui-se de forma semelhante, a partir de outras formas de linguagem que elas dispõem).

Em que medida saber como a criança pensa pode ser importante para nós? Tal conhecimento pode nos dar consciência de quanto podemos contribuir na reconstrução desta criança enquanto sujeito, pois seu pensamento vai sendo constituído a partir de seus próprios movimentos, de seus sentidos, de suas experiências com o outro...

O pensamento verbal, reflexivo, e que possibilita ordenar e organizar o próprio pensamento infantil não surge do nada, mas é construído passo a passo pela própria criança, a partir das interações que ela mantém em seu meio. Assim também ocorre com os valores, ainda que de forma rudimentar. Somente mais tarde a influência dos adultos sobre ela deixa de ser tão forte. Até então, pode-se inclusive alterar, quase completamente, suas características íntimas (“reformar o seu caráter”, como nos diz Kardec, em O Livro dos Espíritos, perg.385), advindas da bagagem trazida de experiências em vidas passadas. Pois novas experiências representam novas construções, e este período inicial, em função de ter como tarefa principal a construção do pensamento e de si mesmo, como sujeito - posto que nem o pensamento verbal está pronto - é extremamente propício a isto.

Saibamos aproveitar cada momento desta fase de nossas crianças, cada parte deste processo tão bonito e agora compreensível em parte para nós, graças aos estudos feitos nesta área do desenvolvimento infantil. Ao contrário do que muitos supunham, quanto mais a ciência caminha, mais perto chegamos da compreensão destes processos como parte de uma filosofia maior da evolução humana e do Espírito imortal.

Ribeirão Preto-SP

REFERÊNCIAS BKBLIOGRÁFICAS:

Jornal “Verdade e Luz” de maio/97.

(Jornal Mundo Espírita de Maio de 1997)