Conversando sobre a Felicidade

Nilson Ricetti Xavier de Nazareno

1. Breve introdução

Este é um ensaio inacabado desenvolvido como contribuição aos jovens e adultos, para promover uma reflexão sobre a Felicidade de modo que se possa compreender que caminhos são chaves para conquista da felicidade relativa.

2. Análise

A felicidade é um sentimento que expressa de alguma forma a satisfação do indivíduo ter uma necessidade atendida, um desejo realizado, uma esperança definida etc.

A compreensão da felicidade se faz no âmbito individual, isto é, no universo pessoal, pois o que é motivo de felicidade para um, pode ser de infelicidade para outro.

As causas da felicidade da equipe vencedora são, com grande probabilidade, causas de infelicidade da equipe perdedora. Numa linguagem mais chula pode-se dizer que a tristeza caracterizada pelo choro devido a morte do parente é compensada pelo largo sorriso do coveiro.

A percepção de valor da felicidade é um atributo puramente individual. Para ações idênticas, que expressam sentimento de felicidade, a percepção e as formas de manifestação exterior da felicidade variarão de indivíduo para indivíduo e são estados de um determinado momento. Pode-se dizer que a felicidade é um sentimento de valor pontual, ou seja, em cada instante tem um significado diferente. Pode até se manifestar como uma fase que precede a um determinado estado de tristeza. Por exemplo, os que se drogam em busca de um motivo de satisfação e conseqüente felicidade terminam dependentes e tristes. Neste caso, a ingestão da droga tem a finalidade de dar um aparente estado de felicidade, e o que se sabe é que este estado é uma fase temporária da depressão, da tristeza. Isto está muito bem caracterizado por que todo o viciado, seja ele tabagista, alcoolista ou usuário de drogas pesadas, quando está em estado normal, manifesta grande desejo de se livrar da dependência. É interessante notar que todo o usuário de álcool, tabaco e drogas sempre inicia o vício pensando que algo lhe dará um momento de satisfação, de alegria, portanto felicidade e todos sabem o triste fim daqueles que não conseguem superar a dependência, mesmo no caso do tabagismo, onde a conseqüência grave é o enfisema pulmonar, que dificulta seriamente a respiração etc. Neste campo de análise pode se dizer que a felicidade acontecerá de forma extremamente relativa de intensidade variável, podendo estar intercalada constantemente com estados elevados de pura infelicidade.

Um copo de água, ou cerveja bem geladas em pleno meio dia do Saara será para o viajante uma causa de elevada felicidade. Esses mesmos atributos para o explorador no alto do Himalaia, ou em plena Antártida, não terá basicamente valor; lá uma xícara de chá ou chocolate quentes serão causa de felicidade.

Por essa extrema variação de valor não se pode dar uma receita absoluta e acabada para a felicidade, que seja universal e que sirva na medida exata para cada indivíduo, como se faz a posologia adequada de um xarope para a tosse.

A capacidade de percepção da felicidade também é atributo relativo a experiência de vida de cada um.

Na infância a percepção da felicidade está estreitamente relacionada com o grau de atendimento de necessidade elementares da sobrevivência, quer de natureza física, quer de natureza emocional. O prazer da amamentação na hora certa, da chupeta, do "paninho de cheiro", do colo carinhoso da mamãe etc.

Na adolescência a percepção da felicidade está muito ligada aos prazeres de contrariar regras, de vencer desafios, de discordar de adultos, em especial, quando estes são progenitores, de demonstrar atributos de valor pessoal, como a beleza, a inteligência, a riqueza, a força. Calçar o tênis de marca e vestir a roupa da moda pode ser real motivo de felicidade relativa. É óbvio que as exigências para se atingir estado de felicidade com atributos como esses estão fortemente correlacionados com os costumes, a educação e a cultura, o nível sócio-econômico etc.

Quando o indivíduo está iniciando o seu estado de adulto novos atributos são adicionados ao complexo já existente para lhe dar estado de felicidade. Nesta fase o simples prazer da conquista do sexo oposto é uma forte causa para a felicidade. A felicidade da conquista pode estar em mais de uma causa. Pode ser a felicidade de se estar junto do ser amado. Mas também pode ser a felicidade de se ter vencido um desafio, que evidenciou atributos pessoais de beleza, persuasão, de inteligência, de charme, de riqueza, de poder e outros. O vestibular vencido, a namorada conquistada, o carro recebido de presente, a viagem ao exterior, são causas reais de felicidade nesta fase da vida, ou para quem está saindo da adolescência.

Na fase de 25 a 30 anos, a realização profissional, o casamento, o primeiro imóvel, o primeiro automóvel comprado, elementos que promovem elevação social, ou status, são agentes causas de felicidade. Também a independência financeira, a saúde em ordem, o reconhecimento social são elementos que contribuem para a felicidade.

À medida que o tempo passa, novos atores entram em cena na arena da vida e alteram o perfil das causas da felicidade. O ser humano pela sua natureza não se acomoda no tempo, está sempre em busca de novas realizações, de novos valores. Essa busca permanente é fator importante no estabelecimento do que pode ser estado de felicidade.

A necessidade de pertencer a um grupo, ou coletividade cria desafios permanentes para as pessoas. Quando alguém deixa de ser ou não é reconhecido no grupo, ou na coletividade a conseqüência desse fato será, com certeza, a infelicidade. A indiferença é, portanto, elemento vital no assunto da felicidade. Inúmeras manifestações de infelicidade tem causa na solidão, que caracteriza a figura de se sentir completamente só, abandonado, mal amado e assim por diante.

A solidão é um sentimento de difícil compreensão, pois muitos vivendo entre familiares, em pequenos espaços, às vezes sentem profunda solidão e entram em estado de depressão e, por conseqüência, são infelizes. Este fato tem como causa principal o desamor, portanto, a ausência do amor é causa da infelicidade. Ausência do amor que pode ser entendida como a falta de reciprocidade da pessoa amada, o rompimento de uma relação duradoura, a dificuldade do relacionamento para se fazer amizades ou para se estabelecer compromissos mais íntimos são causas importantes na análise dos motivos da infelicidade.

O ser humano é um complexo biológico, social, cultural, psicológico e espiritual. Os seus valores estão fundamentados nesses elementos do complexo. Poderia se dizer que o equilíbrio no atendimento de demandas do ser compreendidas nesses elementos, seria causa provável para a felicidade. Depreende-se desse fato que para se conquistar a felicidade com razoável constância e harmonia ‘e preciso se procurar manter todas as necessidades desse complexo atendidas com equilíbrio. Isto implica afirmar que não adianta atender, por exemplo, demasiadamente o lado material da vida, dando-se ênfase no biológico e deixar ao abandono as questões do psíquico, do espiritual, do cultural e do social.

Quando o entendimento da vida leva o indivíduo a acreditar na transcendência, ou seja, na metafísica, na vida além da morte, na imortalidade da alma, e todas as manifestações decorrentes, amplia-se para ele o horizonte de eventos e por conseqüência a Esperança e a Fé tomam assento no concerto de suas inquietações.

Verifica-se que pessoas com razoável conjunto de motivos para serem infelizes, como o de ser portadores de doenças incuráveis, mantêm-se altamente motivadas para a vida, com humor e serenidade enfrentam o transpasse sem muito sofrer. Entre essas pessoas estão aquelas que acreditam com convicção na sobrevivência do espírito, e isto já é elemento de fé e de esperança suficiente para lhes dar novo horizonte, novo futuro.

É possível afirmar que o indivíduo que deposita esperanças no futuro suporta sem grandes dificuldades as eventuais contrariedades do presente. O presente pode não agradá-lo, mas pode também não ser motivo de visível infelicidade pela expectativa de algo melhor em outro mundo no futuro.

Dessa análise pode se dizer que um elemento favorável para a conquista da felicidade relativa é a crença que a morte do corpo não extingue o ser, apenas elimina seu vestuário carnal. Que a vida física é um processo transitório no caminho evolutivo do ser, tal qual as turbulentas águas de um rio caudaloso que reclamam travessia obrigatória a todo o vivente. Se na infância a felicidade poderia ser sentida no simples calor humano do colo materno, na maturidade a felicidade relativa pode ser sentida nas mínimas manifestações da natureza, na compreensão que se tenha do futuro, na oportunidade de ser útil ao próximo, no fato de ser reconhecido como membro de uma coletividade, na esperança de que as dificuldades são transitórias numa jornada imortal.

A oportunidade de ser útil e de se ter o trabalho reconhecido no lar, no trabalho, na sociedade, na política, em qualquer atividade humana, como as de natureza profissional, educacional, religiosa, política e comunitária é causa vital para a conquista da felicidade. Quem permanece na ociosidade é um grande infeliz, pois nada realiza e nada terá para ser reconhecido.

Se a felicidade está na realização pessoal, ligada exclusivamente a conquistas de natureza material, qualquer obstáculo que se apresente contrapondo as conquistas será causa de muita infelicidade. Se a meta do indivíduo é conquistar Marte, mas seus recursos lhe permitem apenas conquistar a Lua, ele, por certo, será um insatisfeito e por conseqüência um infeliz.

Se a felicidade está na realização pessoal ligada a conquista de poder, no trabalho, na política, na comunidade etc., todo o esforço será envidado para atingir esse objetivo, independentemente dos meios -- venderá a própria mãe, como diz o ditado popular. Nada conseguindo será um infeliz.

Quando o enfoque do ser está fundamentado no egoísmo, uma vez atingido os seus objetivos, estará completamente só, pois não avaliou os efeitos das atitudes meio, que por certo, muito prejuízo causaram a muitas pessoas. A felicidade da conquista será efêmera, será seguida em breve pela dor da solidão. Razão pela qual se vê muita gente com abundância material e de poder, porém, completamente infeliz. Algumas chegam a cometer suicídio.

3. Chave para a felicidade

Qual será a receita da felicidade relativa?

A receita da felicidade relativa está no equilíbrio que se faça para a concepção de desejos e necessidades próprias com o objetivo de atendimento do complexo biológico, social, cultural, psíquico e espiritual, que somos nós, no respeito ao próximo, na doação em benefício do próximo, nas atitudes de compreensão e de amor em todos os atos da vida etc.

A crença no futuro, a certeza de que além dos elementos da matéria há forças espirituais e divinas que regulam a vida e suas relações no universo, também pode ser chave para melhor se compreender as facilidades e dificuldades da vida, facilitando a manutenção de estados de equilíbrio e de felicidade relativa.

É possível se alcançar estado de felicidade absoluta?

O estágio atual de evolução espiritual média do ser humano não lhe garante ausência total de sentimentos de ódio, inveja, rancor, egoísmo e de atitudes compatíveis com esses sentimentos.

O ser humano não está ainda apto, em sua maioria, para cumprir o que diz o mandamento maior da lei: "amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo", por essas razões a conquista da Felicidade Absoluta ainda é uma utopia.

A percepção de valor da felicidade é um atributo puramente individual

(Jornal Mundo Espírita de Janeiro de 1998)