De Herodes a Pilatos

Paulo Alves Godoy

"E sabendo que era da Galiléia, Pilatos o remeteu a Herodes".
(Lucas, 23; 6-7)

Jesus Cristo, o maior dos missionários descidos à Terra, teve de caminhar de Anás a Caifás, de Caifás a Pilatos, de Pilatos a Herodes e, novamente, de Herodes a Pilatos, pois, todos eles desejavam a sua morte, mas nenhum deles queria assumir a responsabilidade.

Três deles: Anás, Caifás e Herodes eram judeus. Pilatos era cidadão romano e, indubitavelmente, foi o que menos demonstrou interesse na condenação do Meigo Nazareno.

O povo judeu suspirava pelo advento do tão esperado Messias e, quando este surgiu no cenário do mundo, encontrou no seio desse povo inimigos figadais, dentre eles o principal dos sacerdotes e os escribas, homens que decidiam sobre os assuntos pertinentes à religião. Os fariseus, homens de razoável projeção na época, também fizeram causa comum com os que combatiam as novas idéias trazidas por Jesus Cristo.

O povo israelita desfrutou de um status bastante significativo, quando esteve sob a orientação dos profetas. As admoestações dadas por estes, faziam com que esse mesmo povo sofreasse os seus desregramentos e caminhasse por uma senda mais segura e consentânea com a vontade de Deus; no entanto, logo que Samuel desencarnou e Saul foi proclamado o primeiro rei daquela nação, teve início uma fase muito conturbada, agravada sensivelmente quando os sacerdotes passaram a exercer hegemonia, relegando a plano secundário a atuação dos profetas.

Inegavelmente, profetas não foram somente aqueles assim denominados, ou seja, os doze profetas de Israel. No tempo de Jesus, também houve profetas e profetisas, haja vista o caso de Simeão e Ana, narrados em Lucas (2;25-38); no entanto, esses medianeiros não exerciam ascendência sobre o povo; por isso, no julgamento de Jesus Cristo, a ação dos sacerdotes se fez sentir em toda a sua intensidade. Os sacerdotes não podiam admitir que Deus contemplasse, com os dons da profecia, homens rudes e aparentemente apagados no que tangia ao conhecimento das Escrituras.

Profetas sempre existiram na Terra. Deus jamais deixou que seus filhos ficassem desprovidos da sábia orientação desses homens dotados de dons mediúnicos; as vozes desses intermediários, entre o Céu e a Terra, tinham eco no seio do povo. Depois, essas mesmas vozes praticamente silenciaram, não obstante o fato de algumas terem admoestado os próprios reis e governantes, como foi o caso do profeta Natã, que não trepidou em advertir o rei Davi, pelo fato de ter cometido um assassinato e um adultério. (II Samuel, 12;1-10)

Quando do advento de Jesus Cristo, teve início uma intensificação no processo de intercâmbio com os Espíritos, que perdurou cerca de três séculos, pois os primitivos cristãos mantinham constante intercâmbio com os Espíritos do Senhor. Logo que o Imperador Constantino deu início ao processo de secularização do Cristianismo, dando margem à criação de um corpo sacerdotal e de numerosos bispados, começou a cessar a interferência dos profetas (médiuns), no encaminhamento das coisas de Deus.

Cristo encontrou numerosas dificuldades no desempenho de sua santificante missão. Ele teve que enfrentar os mandatários da época, os detentores dos poderes político e religioso, sendo obrigado a caminhar de Anás a Caifás, de Caifás a Pilatos, de Pilatos a Herodes e, novamente, de Herodes a Pilatos, tudo isso com o objetivo de demonstrar a incongruência das instituições humanas, que tudo fazem para que as coisas dos homens tenham prioridade sobre as coisas de Deus.

Quando do advento de Jesus Cristo, teve início uma intensificação no processo de intercâmbio com os Espíritos

(Jornal Mundo Espírita de Maio de 1998)