E a caridade?

Terezinha Colle

É comum, no meio espírita, diante de certas circunstâncias, ouvirmos dos confrades a clássica pergunta: "e a caridade, onde fica?"

Na Casa Espírita, quando se tenta estabelecer algumas normas de procedimentos, visando a harmonia e o bem-estar de todos, logo surgem os companheiros que se julgam "caridosos", questionando sobre a caridade.

Quando se sugere a alguém que faça a higiene (tome um bom banho) e ponha uma roupa limpa, logo se ouve a observação: "isso é falta de caridade!"

Todavia, também é falta de caridade fazer com que os demais freqüentadores e trabalhadores respirem o odor fétido de uma pessoa que se compraz na sujeira.

Quando se pede para que os grupos de estudos não se convertam em sala de lazer e balbúrdia, onde cada um fala do assunto que deseje e no tom que lhe agrade, não faltam esses companheiros alertando sobre a falta de caridade.

E quanto aos que deixam seus quefazeres, seus familiares, seu lar aconchegante, para dedicar-se ao estudo uma hora por semana, não seria falta de caridade obrigá-los a ouvir asneiras?

Nos eventos variados, desde as palestras na Casa Espírita aos de cunho regional, estadual e nacional, quando é solicitado aos pais que atendam seus filhos barulhentos, surgem os olhares inquisidores daqueles que pensam ser essa atitude uma falta de caridade, uma vez que os pais desejam assistir às conferências em paz.

E nós perguntamos: e os demais assistentes? Não terão eles o direito à tranqüilidade de assistir ao evento?

Assim também acontece quando se solicita que as pessoas desliguem seus telefones celulares. Que não reservem lugares para os que ainda não chegaram e nem se sabe se vão chegar...

O Espiritismo é a Doutrina da razão e do bom-senso. Não sejamos tolos a ponto de voltar o nosso olhar "caridoso" somente para um dos lados. Temos que ter a visão do conjunto, lembrando sempre que a caridade deve ser acompanhada da justiça e do amor, para não ser tola e míope.

E por falar em justiça, esta deve balizar todos os atos da nossa vida. Se ouvimos "conversas" a respeito de pessoas ou Instituições, diz-nos a razão que devemos, antes de estabelecer qualquer julgamento, ouvir o outro lado da verdade, uma vez que essas "histórias" têm, no mínimo, duas versões.

Em O Livro dos Espíritos, abordando os caracteres do homem de bem, os Benfeitores falam do senso de justiça, dizendo que o homem de bem sacrifica seus interesses à justiça. E quanto a nós, os espíritas? Temos sacrificado nossos interesses pessoais por amor à justiça, ou ainda não desejamos ser homens de bem?

O cristão verdadeiro não deve permitir-se, jamais, uma caridade tendenciosa. Ou é caridade ou é apenas afetação conveniente.

Faz-se urgente que submetamos nossas ações ao crivo da razão, para que não venhamos a cair nos precipícios dos mesmos equívocos cometidos outrora.

Antes de proferirmos a sentença fatal: "é falta de caridade!", abramos a mente e o coração e verifiquemos se não estamos fazendo exatamente o que julgamos errado nos outros.

Vale a pena lembrar os exemplos do mestre lionês Allan Kardec. Ele sempre soube empregar a firmeza e a doçura de maneira excelente. Sua austeridade sabia ser terna quando preciso. Sabia evitar os pseudo-amigos que dele se aproximavam com interesses ocultos. Não é outro o motivo pelo qual seu amigo contemporâneo Camille Flammarion o cognominou "o bom-senso encarnado".

Importante ponderar, portanto, que, se somos espíritas, devemos balizar nossas atitudes pelas orientações que nos são trazidas pela Doutrina Espírita, ou, então, devemos abandoná-las por julgá-las desprovidas de argumentos convincentes. O que não devemos fazer é amoldar os conceitos Espíritas, claros e lógicos, às nossas conveniências, pois nesse caso amargaríamos penosamente as conseqüências.

(Jornal Mundo Espírita de Outubro de 98)