Essas outras violências

Maria Helena Marcon

Violência é o ato de constranger física ou moralmente. É o uso da força.

Na atualidade, muitos somos os que afirmamos temer a violência. Por isso mesmo erguemos altos muros ao redor de nossas residências, tentando evitar que ela nos atinja. Contratamos seguranças para protegerem nossas empresas e nossos lares. Instalamos equipamentos sofisticados que nos alertem da chegada de eventuais usurpadores dos nossos bens.

Tememos o roubo, o furto, o constrangimento físico, a agressão. Resguardamo-nos da violência que vem de fora e pode nos atingir.

No entanto, existe outro tipo de violência para a qual não atentamos: é a que reside em nós.

É a violência da indiferença, aquela que nos permite observar diariamente, pelos noticiários, as paisagens da fome, da miséria, e prosseguirmos de braços cruzados. Sim, alguns de nós nos sensibilizamos, chegando às lágrimas, mas as manchetes seguintes nos desviam a atenção e tudo cai no esquecimento, quais notas apagadas e sem valor.

Violência que nos faculta assistir, extremamente interessados, as notícias acerca da agressão sofrida por personalidade importante, ansiosos por detalhes e mais detalhes. Desejamos saber tudo e quanto maior for a violência para com a criatura, mais nos interessamos, pois afinal depois, logo mais, iremos reprisar tudo para o colega, o vizinho, o amigo.

E não nos recordamos de nos recolher à intimidade do coração para orar pelo agredido, pelos seus. À parte a fama, são gente como toda gente: sofrem como todos, desde que a dor tem caráter universal e imparcial.

Participamos ativamente ou assistimos impassíveis a programas em que o ser humano é exposto em toda sua nudez moral, onde a problemática física ou de ordem íntima é levada a público como contos para diversão e lazer. Contudo, os envolvidos são seres humanos que sentem, sofrem, se angustiam.

Violência de dentro, que alimentamos todos os dias, permitindo que ela se torne hidra voraz.

Violência é a atitude com que destinamos velhos e enfermos difíceis a instituições, sem jamais nos interessarmos pelo seu bem-estar. Costumamos aliviar a consciência dizendo que não dispomos de tempo para os cuidados, pois trabalhamos em demasia. Pagamos para que os atendam, à distância, a fim de não lhes ouvir os queixumes e lamentações.

E poderiam estar conosco! Se podemos dispor de recursos amoedados para os manter longe, por que não direcionar esses mesmos recursos a quem os possa cuidar, zelar próximos de nós, sob nossos olhos vigilantes?

Violência é o ato de mudez que elegemos para agredir o outro, no relacionamento doméstico, estabelecendo silêncios gélidos às interrogações afetuosas.

É o filho que se fecha em si mesmo, não respondendo aos questionamentos do amor materno e paterno, como forma de agressão por não lhe concederem o que anseia.

São os esposos que entre si contratam a mudez, como símbolo do desconforto de viverem um ao lado do outro, como acorrentados sem remissão.

Violência é a indiferença pelo bem-estar alheio, que nos faculta chegar ao lar, sermos servidos em tudo e sequer erguer os olhos para ver as rugas de preocupação, as lágrimas de dor no rosto macerado de quem nos serve.

É levantar-se, comer, usufruir dos bens, deitar-se, sem contribuir em nada para a paz do lar.

E bastaria sorrir, agradecer, quem sabe, abraçar quem padece a carência da nossa ternura.

A violência de fora pode nos ferir e magoar. A violência de dentro, silenciosa, que aplicamos todos os dias, em nossos relacionamentos, é igualmente perniciosa e destruidora.

Muitas enfermidades se aninham e evoluem, gradualmente ou abruptamente, como resultado da própria violência íntima ou de outrem, normalmente afetos bem próximos.

Mudez, indiferença, frieza: violências que se reprisam, armas cruéis.

Principiemos por alijar de nós a violência, exercitando o diálogo, o perdão, os bons sentimentos.

E veremos, exatamente como no solo crestado pela invernia, rebentar em flores e verdura a primavera da paz, em nossos corações.

Muitas enfermidades se aninham e evoluem gradualmente ou abruptamente como resultado da própria violência íntima ou da de outrem

(Jornal Mundo Espírita de Outubro de 98)