Felicidade

Rogério Coelho

“A felicidade depende das qualidades próprias do indivíduo e não do estado material do meio em que se acha”. - Allan Kardec (1)

Segundo o pintor Fernand Léger, “só há felicidade no trabalho”. Se estamos tendo tempo de nos sentirmos infelizes é porque está nos faltando disposição para o trabalho.

“Por toda parte, (1) há vida e movimento; nenhum recanto do espaço infinito que não esteja povoado; nenhuma região que não seja incessantemente percorrida por inumeráveis legiões de seres radiosos, invisíveis para os sentidos obtusos dos encarnados.

Enfim, por toda parte, há uma felicidade relativa para todos os progressos, para todos os deveres cumpridos; cada um leva consigo os elementos de sua felicidade, na razão da categoria onde coloca o seu grau de adiantamento...

A felicidade está em toda parte onde haja Espíritos capazes de senti-la; nenhum lugar circunscrito lhes é assinado no Universo. Entretanto, a felicidade não é pessoal. Se só a encontrasse em si mesmo, se não pudesse fazer que outros a partilhassem, seria egoísta e triste; ela está na comunhão de pensamentos que unem Espíritos simpáticos. Os Espíritos felizes, atraídos uns para os outros pela similitude de idéias, gostos, sentimentos, formam vastos grupos ou famílias homogêneas”.

A maior felicidade que nos é lícita sentir na Terra é a felicidade que podemos proporcionar a alguém.

Kardec dirige uma série de indagações sobre este tema aos Espíritos: (2)

“O homem pode gozar, sobre a Terra, de uma felicidade completa?”

Respondem os Benfeitores Espirituais:

“Não, visto que a Vida lhe foi dada como prova ou expiação. Mas, depende dele amenizar seus males e ser tão feliz quanto de pode ser sobre a Terra. O mais freqüentemente, o homem é o artífice de sua própria infelicidade. Praticando a Lei de Deus, Ele se poupa dos males e chega a uma felicidade tão grande quanto o comporta a sua existência grosseira.

Há uma medida de felicidade comum a todos os homens: a posse do necessário para a Vida material, a consciência tranqüila e a fé no futuro para a Vida moral.

À medida que os Espíritos se depuram eles encarnam em mundos cada vez mais perfeitos até que tenham se despojado de toda matéria, alijado todas as manchas originais dos erros pretéritos, para gozar eternamente da felicidade dos Espíritos puros no seio de Deus.

A felicidade dos Espíritos Superiores consiste em conhecer todas as coisas, não ter ódio, nem inveja, nem ciúme, nem ambição, nem quaisquer das paixões que fazem a infelicidade dos homens. Eles não experimentam nem as necessidades nem os sofrimentos, nem as angústias da Vida material. São felizes do bem que fazem”.

François-Nicolas-Madeleine, abrilhanta a Codificação no ano de 1863 com uma inspiradíssima página que ratifica com muita ênfase o axioma do Eclesiastes: “A felicidade não é deste mundo”. À primeira vista, numa análise perfunctória, o neófito assusta-se com essa peça literária, vez que ela corta pela raíz - sem tergiversações - seus anseios e esperanças na felicidade terrena. “com efeito” - diz ele -, “nem a riqueza, nem o poder, nem mesmo a florida juventude são condições essenciais à felicidade. Digo mais: nem mesmo reunidas essas três condições tão desejadas, porquanto incessantemente se ouvem, no seio das classes mais privilegiadas, pessoas de todas as idades se queixarem amargamente da situação em que se encontram.

Assim, pois os que pregam que a Terra é a única morada do homem e que somente nela e numa só existência é que lhe cumpre alcançar o maior grau das felicidades que a sua natureza comporta, iludem e enganam os que os escutam, visto que este Globo não apresenta as condições necessárias à completa felicidade do indivíduo. O homem absolutamente feliz jamais foi encontrado”.

Joanna de Ângelis incentiva-nos a colocar alegria na ação, como fonte geradora de saúde e bem-estar, dizendo que (4):

“o homem que executa com prazer os seus deveres e sabe transformar as situações difíceis, dando-lhes cor e beleza, supera os impedimentos e facilita a realização de qualquer empresa.

A alegria, desse modo, resulta de uma visão positiva da vida, que se enriquece de inestimáveis tesouros de paz interior. Viver deve ser um hino de júbilo para todos quantos se movimentam na Terra.

Quanto faças, realiza-o com alegria. Põe estrelas de esperança no teu céu de provações e rejubila-te pelo ensejo evolutivo. Qualquer ação inspirada pela alegria, torna-se mais fácil de ser executada e aureola-se da mirífica luz do bem. Coloca o toque da alegria nas tuas realizações, e elas brilharão, atraindo outras pessoas que se sentirão comprazidas em poder ajudar-te, estar contigo, participar das tuas tarefas. O Evangelho é uma Boa-Nova de alegria, vez que ensina a superar a dor, a sombra da saudade e aclara o enigma da morte. Neste como em todos os teus dias, sê alegre, demonstrando gratidão a Deus por estares vivendo”.

Paulo de Tarso escrevendo a Timóteo, em certo trecho da carta disse:

“(...) tendo, porém, sustento e com que nos cobrirmos, estejamos com isso contentes”.

Com tal pensamento, Paulo nos convida a reprimir a ambição, optando pela simplicidade e despojamento.

Emmanuel, (6) com seu brilhante e inigualável tirocínio, conquistado em proveitosos tamises palingenésicos, conclama-nos à alegria e ao auxílio a todos, pedindo-nos descerrar as portas de nossa Alma e deixar que o sentimento fulgure para todos, à maneira de uma estrela cujos raios iluminem e balsamizem, alimentem e aqueçam.

Dividamos o pouco, e a insignificância da boa-vontade, amparada pelo amor, se converterá com o tempo em prosperidade comum, à semelhança da chuva, que, derramando-se em gotas, fertiliza o solo e sustenta bilhões de vidas. Algumas sementes, atendidas com carinho, no curso dos anos, podem dominar glebas imensas”.

O célebre Balzac afirma que (7)

“a vida atual é sempre o epílogo de dramas de vidas transcursas e o prólogo de outros dramas em existências porvindouras. No recesso de nossas intuições, somos as testemunhas dos séculos mortos, das vidas imemoriais em todos os meridianos do Planeta. Na carne, todos vivem morrendo e todos morrem vivendo.

Na ronda do tempo, no bojo das trevas do sofrimento, atravessamos veredas esfogueadas de provações para que venhamos a atingir a luz redentora das auroras imortais. Vivamos na condição de homens perecíveis e Espíritos eternos. Existe um Poder Imanente que nos sustenta os destinos e nos constrange ao progresso. Vivamos e confiemos! Restituamos em amor aos semelhantes algo dos tesouros de carinho que devemos ao Pai. Transfiguremos os sofrimentos em balizas de luz”.

Irradiemos pelo Universo o último canto de Bílnia (8) em um uníssono forte a patentear nossa imorredoura fé no Criador:

“Supremo Árbitro, Mestre de Amor, releva-nos as imperfeições milenares. Sustenta-nos a humildade ante os caminhos redentores. Amerceia-te de nós, Coração do Universo, que abranges em Tua glória todos os seres da Criação. Soergue-nos dos baixios de lágrimas às Esferas da Perene Alegria!

Agora, com o Espiritismo, nova era alvorece para os homens, descerrando-nos, na Terra, o regozijo de Teu Reino. Ensina-nos por Jesus Cristo as Tuas Leis eqüânimes! Deixa cair o pólen das idéias renovadoras na gleba de nossas Almas, fecunda-nos de amor os ideais de regeneração e exuma, Pai Excelso, as esperanças que largamos à retaguarda, soterradas no chão dos milênios mortos!

Faze que vejamos em tudo apenas o bem que nunca morre. Mostra-nos que o Sol não tem sombras e que, em todos os domínios do Cosmo, há Sóis que se acendem e Céus que se expandem, infinitos. Torna-nos humildes em nossa pequenez para que nos engrandeçamos, um dia, em Teu Amor!

Senhor, ao Clarão de Teus ensinos, nenhum de nós desconhece a necessidade do sofrimento! Revelaste-nos que o calvário da redenção é uma subida de jubilosa dor e mostraste-nos que os braços da cruz a que somos jungidos, se suportados com paciência, transformam-se em asas de luz para a Eternidade!

Fortalece-nos, Senhor, para a estrada da remissão que nos cabe palmilhar e dá que estejamos no clima de tua paz e na bênção do teu amor, agora e para sempre!...”

(1) Kardec, A. in “Revue Spirite” - março/1865

(2)_________ in “O Livro dos Espíritos” - Questões 920, 922, 985 e 967

(3) _________ in “O Evangelho Segundo o Espiritismo” - Capítulo V, item 20

(4) Joanna de Ângelis/Franco, D.P. in “Episódios Diários” - Capítulo 40

(5) I Timóteo, 6:8

(6) Emmanuel/Xavier, F.C. in “Fonte Viva” - Capítulo 74

(7) H. Balzac/Vieira, W. in “Cristo Espera por Ti” - Capítulo 74

(8) idem, cap. 75

(Jornal Mundo Espírita de Maio de 1997)