O Caráter

Nilson Ricetti X. de Nazareno

Na bigorna do tempo, sob o malho do magistral ferreiro, sr. Hábitos e Costumes da Época, forja-se o caráter da personalidade humana.

Ao final da longa jornada de ferro e fogo, fica esculpida a marca do artista. Artista que representa o conjunto dos artesões de uma vida, iniciando pela primeira artesã, que afaga amorosa e exultante o ventre, que germina uma vida nova, a mãe.

Da multiplicidade e complexidade da oficina familiar passa-se a forjar o caráter nos ateliês do mundo exterior, onde cada artesão está representado pelos grupos de relacionamentos interdisciplinares, que compreendem as comunidades do bairro, da escola, do trabalho, do templo e da sociedade em geral. Inclui-se nesse processo de escultura da personalidade a própria cadeia de descendência, onde o malho do ferreiro bate firme, tendo por base sólida a bigorna do tempo. O caráter terá o registro do aprendizado dos novos relacionamentos, agora de pai e mãe, de avô e avó, de tio e tia, de cunhado e cunhada, de companheiro e companheira, e outros, em complemento à forja já vivenciada de filho e filha, de neta e neta, de sobrinho e sobrinha, etc.

Assim, a marcha do tempo vai consolidando os valores que cada artesão foi capaz de moldar. O resultado dessa moldagem sintetiza nossa personalidade num determinado tempo.

Para uns dizem : " este é um bom caráter"; para outros dizem: "este é um mau caráter".

O julgamento que se faz está sempre baseado no modelo que o ferreiro, sr. Hábitos e Costumes da Época, adotou.

Quando esse velho ferreiro estiver já aposentado, e na bigorna do tempo estiver malhando, quem sabe o seu neto, o que o velho artesão forjou como mau caráter possa ter outro significado, da mesma forma que os costumes e hábitos das sociedades primitivas e de práticas antropofágicas, em relação aos costumes e hábitos do que se denomina sociedade civilizada.

O modelos utilizados pelos artistas do renascimento, seguramente, não são os modelos ideais do artista atual. Os hábitos e costumes da comunidade muçulmana oriental não são os hábitos e costumes da comunidade liberal ocidental.

Por essa diversidade, não se pode, em definitivo, querer rotular o ser humano sem conhecer a sua história. História que pode ter começado num harmonioso lar, ou em abandono nas frias ruas urbanas.

A história que se recomenda conhecer é relativa à vida presente. Mas, é sem dúvida alguma, a personalidade de cada um forjada nas muitas vivências anteriores. Dessas ficam, na vida presente, traços, que caracterizam tendências de comportamento manifestadas desde a mais tenra infância. Sobre esse esboço é que se retempera o caráter, malhado na bigorna do tempo, para formar uma nova personalidade, de preferência melhorada em relação às anteriores.

Assim, a marcha do tempo vai consolidando os valores que cada artesão foi capaz de moldar. O resultado dessa moldagem sintetiza nossa personalidade num determinado tempo.

(Jornal Mundo Espírita de Junho de 1998)