Os Deficientes na Família e na Sociedade Espírita

Nancy Puhlmann di Girolamo

Visão integrativa do ser proporciona melhores resultados

Com o objetivo de contribuir, de alguma forma, na plena integração das pessoas portadoras de deficiências nas Casas espíritas apresentamos alguns subsídios extraídos de nossa convivência gratificante com os chamados "excepcionais". Iniciamos fazendo algumas considerações teóricas porque nos pareceram necessárias como argumentos em defesa da viabilidade e importância da presença participativa dos deficientes dentro do movimento espírita.

1) AS DIFICULDADES DA INTEGRAÇÃO - Os portadores de deficiências ainda não estão suficientemente integrados na sociedade espírita. Essa afirmativa não significa que existam discriminações propositais ou que a sociedade espírita tenha para com eles uma atitude e um procedimento diferentes das demais coletividades. O que desejamos salientar é o desnível entre os princípios da Doutrina Espírita sobre a vida, o ser, o destino e as conseqüências práticas retardadas, dentro do objetivo expressado pelos espíritos a Allan Kardec no alvorecer da Codificação: "É ao mundo todo que se trata de agitar e transformar". Diante da árvore mais fértil plantada na Terra após o cristianismo, parece-nos que os frutos estão espalhados pelo chão como se tivéssemos o privilégio de só colher o que satisfaz à fome de cada um de nós. A Doutrina Espírita tem tal sabedoria e profundidade que não basta conhecê-la por leitura e por estudo. Seu tríplice aspecto, em caráter de síntese das verdades que a filosofia, a ciência e a religião procuram separadamente sem encontrar (exatamente por estarem separadas) necessita repensares a cada experiência de vida, a cada geração de pessoas, a cada descoberta do progresso. A ultrapassagem do mecanismo reducionista newtoniano e do racionalismo do método cartesiano, que ensinaram a classificar e a pensar com clareza, levou, pela lei do progresso contínuo, ao novo paradigma, de que tanto se fala hoje, próximo ao holismo integrativo, sem perder a centralização monista. É ainda no Espiritismo, tal como codificado por Allan Kardec, que encontramos o marco inicial desse paradigma e as bases para a civilização dos próximos séculos - "Tudo se encadeia, tudo se liga no universo" é a frase-chave da nova visão cultural e, sob ela, todas as circunstâncias, situações e variedades assumem importância imprescindível à harmonia do todo, cujo fulcro irradiador é "A Causa primária, a Inteligência Suprema". Não é fácil, hoje, avaliar corretamente a transcendência do aparecimento histórico cultural do Espiritismo na Terra. Menos fácil é a aplicabilidade na vivência pessoal e ainda menos fácil a projeção na sociedade da função transformadora que ilustraria o objetivo implícito nessa transocialização entre encarnados e desencarnados. Os grupos sociais, unidades da sociedade, não são simples soma das pessoas mas uma terceira realidade que tende a exercer pressão e hegemonia sobre cada um dos indivíduos que os compõem.

A Cibernética Social, estruturada pelo sociólogo Waldemar de Gregori, analisa a sociedade dentro de uma ótica sistêmica, entrelaçada nas telas de um "Show planetário". O indivíduo busca sua difícil auto-condução, em meio a um jogo triádico, tendo de um lado o Poder ou a situação dominante Oficial, do outro lado, o apelo natural de Renovação e, no centro, a posição Oscilante, entre um e outro, não propriamente procurando o equilíbrio mas permanecendo indecisa sobre o rumo a tomar. O contexto natural renovador acaba se sobrepondo e obtém o poder da oficialidade que, temporariamente, se estabelece e fica conservador até a repetição do processo. Essa trialética lembra as observações otimistas de Kardec sobre a transformação da sociedade através da influência da minoria tendente à verdade e ao bem sobre a maioria indecisa, para defender a sua certeza absoluta de que "o bem vencerá". A Cibernética Social destaca a "dinamização das potencialidades" como agente do processo de mudança, tanto no nível individual como no nível grupal, societário e universal.

Referimo-nos, de passagem, à visão da Cibernética Social para reforçar as afirmativas que unem a clareza cartesiana, utilizada por Allan Kardec nos livros da Codificação, às atualíssimas concepções da trialética holística. O que se tem de verdadeiro em nossa modernidade já estava presente na magnífica síntese publicada na Terra em 1857 sob o nome de O Livro dos Espíritos. O objetivo das encarnações é a evolução, que pode ser expressada como o processo do desenvolvimento das potencialidades dos filhos de Deus, herdeiros do reino do Pai, por direito de criação.

É nesse contexto que colocamos a primeira afirmativa do nosso tema e que podemos compreendê-lo. Não, certamente, aceitá-la passivamente sob pretexto de suas dificuldades mas procurar os pontos vulneráveis que permitirão concretizar uma das condições mais decisivas para a fraternidade humana: o relacionamento empático de um para com todos, sem exceção. Por isso Jesus disse: "Ama a teu próximo como a ti mesmo", abrindo a primeira porta da libertação dos viventes na Terra, a partir das experiências comuns aos aprendizes, ainda na fase de um periférico amor a si próprio.

A frase evangélica, sábia entre as mais sábias, faz surgir novas conotações humanas na busca de vocábulos ligados à harmonia, cuja falta se traduz em inquietação, insegurança, medos e infelicidades. Uma dessas conotações está na palavra Empatia, desenvolvida por Carl Roger, na qual o outro é, em essência, igual a mim; o que busco, ele busca; o que faço nem sempre ele consegue fazer mas muito do que ele faz eu não sei fazer; então, estamos interligados como equipe, permutando capacidades para chegar à vitória, jogando no mesmo time. As considerações acima colocam o significado da integração humana dentro da empatia como condição de dignidade de vida. Mas as pessoas portadoras de deficiências são vistas como elementos estranhos onde quer que estejam, exceto nos poucos lugares destinados aos tratamentos especializados. O drama social que enfrentam está no fato de apresentarem suas diferenças tão ostensivamente que é difícil não se tornarem focos de atenção e, a seguir, de retração. Talvez essa retração (que leva à rejeição e à discriminação) disfarce uma espécie de medo e auto-defesa, provocados pela desconfiança de que se o fato ocorre com alguém da espécie humana pode acontecer conosco e a qualquer momento. Como de fato pode.

2) O PROCESSO INTEGRATIVO COMEÇA NA CONCEPÇÃO - Cinco a dez por cento dos recém-nascidos podem apresentar, ostensivamente ou discretamente, situações atípicas ou riscos no futuro desenvolvimento. Lesões cerebrais por anóxia e outros acidentes ocorridos durante o nascimento, síndromes cromossômicas e genéticas instaladas na concepção ou problemas mínimos ou grandes no desenvolvimento das etapas de ovo, embrião e feto. Nasceram, sobreviveram e vão enfrentar difíceis obstáculos para ultrapassarem o tempo daquela encarnação. Não tivessem eles muita determinação e forte vontade, não se candidatariam a tais dificuldades. Salvo exceção, a mente do espírito sabia, aceitara e geralmente pedira o encontro com esses obstáculos, contando com a retaguarda afetiva de amigos do passado que o receberiam. Com certeza souberam acerca dos riscos do renascimento numa sociedade onde os valores ainda estariam vinculados aos aspectos viso-externos. Por tudo isso temos de considerá-los espíritos destemidos.

A integração humana começa na concepção, ou melhor, antes dela quando o "campo" vibratório da futura mãe se torna um ímã de atração para o futuro filho, dentro do envolvimento já existente e do plano reencarnatório, delineado, escolhido, aceito ou imposto para os encontros naquele trecho do caminho da vida.

A contribuição do Espiritismo é urgente nesse início de interação e empatia, ainda porque cada nascimento é uma resposta ao apelo da fraternidade e cada resposta pessoal interfere na humanidade toda. Essa contribuição acresce de importância nas encarnações difíceis, cujo número está percentualmente aumentando em nossa modernidade. Vários livros e pesquisas estão sendo divulgados identificando que o preparo para o convívio harmonioso e para a vida plena começa no diálogo com o bebê no ventre materno. Afirmam que é, efetivamente, um diálogo, pois o adulto fala e o feto responde como pode, sendo, é claro, mais receptivo que expressivo. Esses alguns livros são contudo poucos, além de se posicionarem dentro de modelos acadêmicos. Não ousaram avançar antes dos primeiros movimentos do bebê sentidos pela mãe e se omitiram de aspectos espirituais. Que pena! Os livros recebidos por Chico Xavier, notadamente a série André Luiz, forneceria a esses escritores e pesquisadores, um imenso oceano de informações. Que esplêndido programa poderão as sociedades, as instituições, os centros e as casas espíritas desenvolverem nesse sentido! Ouviremos: "Já está sendo feito esse trabalho. No Brasil a gestante, principalmente a carente, recebe assistência pré-natal em inumeráveis serviços espíritas, acrescidos de cursos sobre o nascimento, confecções de enxovais e fluidoterapia através de "passes", além de sugestões educacionais. A nosso ver isso é muito bom mas é ainda muito pouco e qualitativamente pequeno diante dos recursos oferecidos pela Doutrina Espírita na sua abrangência metassocial. Movimentos estão surgindo em São Paulo prenunciando boas esperanças de expansão como o VITA, criado em 1990 para a Valorização da Vida intra-uterina e a Materialidade Holística, referida no livro recém lançado do confrade Marcos Augusto de Azevedo.

3) O BEBÊ ATÍPICO NASCEU E SOBREVIVEU - Foi bom ele ter nascido? As respostas variam. Os preocupados com a situação sócio-econômica lembram que ele é um dos 10 em cada 100 que vão agravar ainda mais os problemas da Terra, ligados à produção e à distribuição de recursos. Os adeptos das religiões apresentam respostas diversas: "A vontade do Todo poderoso quis assim", ou simplificadamente: "É o Karma". A ciência de retaguarda, procurando ser humanista, poderá dizer: "Provavelmente, morrerá cedo". Os amigos, compadecidos, dirão ao bebê: "Coitadinho, é um anjinho" e aos pais: "Estamos com vocês nesse drama tão triste" e aos vizinhos "Souberam da tragédia acontecida na família dos Silvas?".

Essas frases, em estilo informal, apresentam por abrangência as outras variedades. Em todas, ele, o bebê atípico, é o indesejável, o subconscientemente rejeitado. A nós, participantes da coletividade reencarnacionista, uma dessas respostas merece maior análise. É aquela que, lembrando por atavismo cultural a Pena de Talião: Olho por olho, dente por dente", condena sem julgamento e coloca sobre os frágeis ombros do bebezinho excepcional, arbitrariamente os qualificativos da criminalidade, em nome da Justiça divina, que, nesse sentido, fica menor que o Amor. Por mais que a coletividade espírita esteja falando e escrevendo sobre o que dissemos acima, ainda é pouco. Não porque queiramos mas porque, como nos lembra André Luiz, "Contra os nossos anseios de claridade temos milênios de sombras". A vocação punitiva, tão enfatizada no Velho Testamento, resiste à plenitude do Amor dos Evangelhos cristãos.

O bebê deficiente está no seu berço de redenção. A família se entristeceu e se decepcionou por ele ter nascido como nasceu. Lembra-nos um dos personagens do extraordinário livro "Memórias de um suicida" (ditado à médium Ivone Pereira), que renasceu sem os braços. Na intimidade, seu espírito estava felicíssimo. recebera a oportunidade tão solicitada. Amigos desencarnados se regozijavam, ainda porque ele voltara ao aconchego dos mesmos comparsas de escuras tramas do passado. Finalmente surgira o momento da decisiva renovação para todos. Mas, aqueles mesmos familiares de hoje e de outrora, choravam a desgraça que acontecera por lhes ter nascido um bebê defeituoso.

4) O ESTIGMA MORAL - Nosso bebê cresceu. É agora um menino. Não fala, não anda, talvez tenha hipertonia muscular e movimentos convulsivos dificultando suas necessidades vitais. Talvez faça algumas coisas comuns, porém com dificuldades. Tem tanto a dizer e não consegue se expressar. É um espírito preso! Então se diz dele: "É o criminoso que voltou", criando-se o mais terrível dos estigmas. Chamamos a esse, o "estigma dos reencarnacionistas distraídos!". E ousamos dizer que é um chamamento muito delicado. Tal como comparamos a felicidade à sintonia com as leis divinas, sob a luz do Espiritismo, pudemos comparar a experiência difícil com a redenção concentrada ou a renda do tesouro acumulada. Sim, é para resgatar dívidas contraídas, mas o passado ficou lá atrás e o presente é o novo dia projetando-se para o futuro. O estigma moral colocado sobre os deficientes de hoje é uma confusão entre passado e presente, uma distração interpretativa diante da tese espírita sobre a evolução. No agora dos deficientes há muito do "Filho pródigo" da parábola evangélica, voltando à Casa Paterna.

Um dos riscos na compreensão da Lei de Causa e Efeito está em se enfatizar os aspectos dramáticos de preferência aos abençoados atalhos, que são estreitos e árduos, mas necessários à gloriosa escalada na montanha do auto-aperfeiçoamento. Coloca-se sobre as palavras "Expiação" e "Provas" uma sobrecarga pejorativa, também arbitrária, que as faz sobressair sobre a finalidade fundamental das reencarnações, em suas múltiplas variedades, dentro das duas metas expressadas na célebre resposta 132 de O Livro dos Espíritos... "a Perfeição" e, depois, "tornar a criatura apta a colaborar na obra do Criador". Sobressai o dueto passional crime-castigo como se não estivesse tão clara a certeza de que Deus é Amor. Expiação e Provas são desvios comuns do trânsito, possibilitados, menos por punição do que pelo amor contido no centro da Lei Divina. Parecemo-nos, às vezes, na situação ilustrada na frase profunda e pitoresca: "Engolindo um elefante e coando um mosquito".

Nosso menino entrou na faixa etária escolar e não poderá freqüentar as escolas comuns. Contudo tem o direito à educação e ao tratamento, ao lar e à participação em todos os recursos ao seu alcance, porque ele é, antes e acima de tudo, uma Criança vivendo sua fase infantil. Precisa de Habilitação especial e essa terá efeitos satisfatórios se considerá-lo como um ser integral, com necessidades de desenvolvimento tanto bio-psico-sociais como espirituais. Aí surgem as maiores dificuldades. Há instituições assistenciais para os cadencia dos de poder aquisitivo, há clínicas sofisticadas para as famílias de bom nível econômico. A classe mais defasada é a classe média, a maioria. Geralmente os programas, mesmo os melhores tecnicamente, omitem enfoques espirituais e, conseqüentemente, ficam descartadas as avaliações de profundidade e a conseqüente valorização da experiência de vida desses deficientes. Sem a valorização é óbvio que continuarão as rejeições e as marginalizações sócio-culturais e afetivas.

Pensamos que a sociedade espírita tem todas as condições para preencher esses espaços vazios criando e desenvolvendo serviços alternativos para complementar a integralidade da assistência. Ousamos afirmar que, sob variadas formas, a sociedade espírita está sendo convocada a se mobilizar também nessa área. Não se trata propriamente de se sobrecarregar com a criação de construções especializadas, mas de oferecer mais ampla contribuição às que já existem, principalmente na área específica da vivência espírita, como na fluidoterapia pelos "Passes" e nas diversas formas comuns na Casa espírita que podem se ampliar em favor dos deficientes.

Algumas instituições receberam convites diretos, impossíveis de serem desatendidos. Isso deve ter acontecido com os trabalhadores do Centro Espírita Nosso Lar - Casas André Luiz. Tal ocorrência também surgiu na Instituição Beneficente Nosso Lar a que estamos ligadas. Um dia jogaram na porta um recém-nascido envolvido em finas roupas nas quais estava preso um cartão com os dizeres: "Mãe desesperada conta com vocês". Era um bebê visivelmente deficiente. Esse fato levou a Instituição a criar um Departamento especializado e o desespero daquele cartão, no qual a rejeição se apresentava na forma de dor, ainda hoje, passados mais de trinta anos, nos mobiliza em favor da desmarginalização desse tipo de bebês.

5) A PREVENÇÃO NECRÓFILA - Ojetivando a Prevenção e a Eugenia como ideais sanitários e, sob o critério hedonista projetado na chamada "boa qualidade de vida", tenta-se colocar na Legislação brasileira a solução salvadora e preservadora da vida, através do aborto provocado. Para a plenitude biófila, a solução necrófila. O pretexto mais repetitivo e, aparentemente mais incontestado, é o de impedir o nascimento de bebês atípicos ou anômalos. Na horizontalidade do panorama social esse pretexto até parece válido embora a eficiência da detectação laboratorial possa ser discutível e apesar de que, aberta essa primeira porta, toda e qualquer tentativa de nascimento, normal ou não, encontrará o risco de não ser efetuada. É a Pena de morte decretada aos bebês como alternativa às penas da sobrevida. Fácil imaginar a que oceano esse riacho de sangue nos poderá levar!

Organizações destinadas à saúde e à criança defendem esse crime em nome do bem estar social da humanidade, o que é espantoso. Lembra-nos a famosa história do rei que tinha um problema: 9 chapéus e 10 cabeças. Os sábios deram a solução: Corte-se uma cabeça.

Longe estamos do tempo em que os conhecimentos, a assimilação e a aplicabilidade dos princípios espirituais da vida venham a inspirar as decisões da Terra. Pode ser que o Aborto, a Pena de morte e a Eutanásia - 3 parentes literalmente consangüíneos - venham a ser legalizados em nosso país. Não conseguiremos, talvez, deter os documentos escritos mas podemos semear as idéias-raízes, ilustrar seus frutos nos procedimentos de nossas Casas espírita. A vida do corpo, tanto quanto a vida do espírito precisam ser valorizadas pois se ao espírito cabe "intelectualizar a matéria", é o corpo físico, ou é nele, que se realiza o desenvolvimento das potencialidades latentes do espírito. Pensamos que podemos seguir na direção inversa, divulgando, divulgando e divulgando o significado e a valorização da vida, não como etnocentrismo religioso mas com a certeza de que há, embutida na intimidade de todos os seres humanos, a expectativa dessa valorização. O Espiritismo modifica de tal forma as conotações, que as expressões, tão usadas no modismo de hoje, aparecem sobre outros aspectos, não como "Remendos novos em panos velhos" mas com resgates dos seus verdadeiros significados. As metas da vida, sintetizadas no aperfeiçoamento contínuo, nos fazem perceber onde estão as causas dos problemas humanos. Pelas causas descobrimos os verdadeiros recurso de Prevenção e esses nos levam a saber que somente há "boa qualidade de vida" quando se está sintonizado com as leis divinas. Essas leis estando gravadas na consciência e, sendo a consciência a nossa individualidade, a sintonia é a única possibilidade felicitadora. O sentido hedonista material pode ser reinterpretado colocando-se sobre ele a expressão do que podemos chamar hedonismo espiritual contido nos Evangelhos assegurando que o esforço na direção do bem pode ter retornos "A dez, a trinta ou acento por um". A eugenia é, sem dúvida um bem desejável. Um dia a Terra será um mundo de harmonia, de permuta espontânea entre o eco e o ântropo-sistema. Haverá empatia de cada um diante dos outros. As doenças não serão necessárias e qualquer deficiência física ou moral não existirá mais. Nosso planeta será "Possuído pelos mansos". Não é esse o ideal eugênico? Nessa perspectiva, a Prevenção necrófila, além da covardia embutida no seu procedimento, é ineficaz como acionadora do processo eugênico, tanto quanto é ineficaz em nível pessoal, familiar e social, para a chamada plenitude da vida, tão deploravelmente adulterada em nossos tempos, pois uma plenitude que utiliza a morte é um lamentável e terrível engano.

O Semeador - marco/97.

(Jornal Mundo Espírita de Julho de 1997)