Temos aplicado?

Antônio Moris Cury

Quando estudamos as cinco obras básicas da Doutrina Espírita (O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese), que tratam de ciência, filosofia e religião, logo chegamos à conclusão de que ela prioriza o bom senso, ao mesmo tempo que aconselha o uso permanente da lógica, do equilíbrio e sobretudo da razão, o que não é de surpreender, uma vez que Allan Kardec, o seu Codificador, foi considerado por Camille Flammarion, o célebre astrônomo francês, como sendo "O bom senso encarnado", e, também, pelo que consta no frontispício da obra O Evangelho segundo o Espiritismo, ao definir que "Fé inabalável só o é a que pode encarar frente a frente a razão, em todas as épocas da Humanidade".

Assim, é oportuno que nos perguntemos se estamos seguindo e principalmente aplicando em nossas vidas, em nosso dia-a-dia, tal aconselhamento, vale dizer, se estamos procurando agir com equilíbrio e com bom senso e se estamos tomando as nossas decisões, em quaisquer campos e sobre as mais variadas questões, depois, e só depois, de passá-las pelos filtros da lógica e da razão, logicando e raciocinando, sempre.

É claro e muitíssimo importante que ajamos em consonância com os ensinos do Cristo, que nos mostrou ser o Amor a lei maior da vida, tanto assim que o seu ensino máximo está consubstanciado na expressão "Amar ao próximo como a si mesmo" , isto é, fazer ao próximo aquilo que gostaríamos que ele nos fizesse, sendo certo que quem desse modo procede estará, exatamente por isso, amando a Deus sobre todas as coisas.

Temos agido assim ?

Se temos, ótimo. Que continuemos, sempre e sempre, ainda que a pouco e pouco!

Se não temos, não há razão para desânimo, mesmo porque sempre é tempo de começar ou de recomeçar.

A verdade é que perseguir tais objetivos e mantê-los, depois de alcançá-los, é de todo conveniente, sob todos os pontos de vista.

Com efeito, quando aplicamos a lógica e a razão e agimos com equilíbrio e com bom senso, erramos menos e, portanto, acertamos mais, com o que, ainda que não o percebamos claramente, estaremos contribuindo de maneira considerável para a harmonia e a melhoria das relações humanas.

Ademais disso, quando as nossas ações são apoiadas no ensinamento de Jesus de Nazaré, o Cristo, particularmente quando enxergamos no próximo não um estranho mas um irmão, e a ele fazemos o que apreciaríamos que ele nos fizesse, sem dúvida, estaremos sendo muito mais felizes, desde agora, aqui mesmo no planeta Terra.

Por outro lado, é necessário que tenhamos fé, fé inabalável, que possa encarar a razão frente a frente, em todas as épocas, e isto só se consegue quando há convicção.

Evidentemente, não basta a fé cega, em que se acredita por acreditar e que, por esse motivo, não se sustenta e não resiste nem mesmo ao mais leve raciocínio, a nada conduzindo, a não ser a decepções e a desilusões.

A convicção geralmente advém do estudo, da observação e da análise constantes, em que os postulados doutrinários passam pelos crivos da lógica e da razão, fazendo com que os aceitemos com segurança, sem nenhum resquício de dúvida, como, por exemplo, quando logicamos e aceitamos com absoluta naturalidade que Deus é único, onipotente, onisciente e onipresente, infinitamente bom e justo, sendo a inteligência suprema do Universo e a causa primária de todas as coisas; que o Espírito ou a Alma existe e é imortal; que a vida é uma só, mas que há múltiplas existências; que é perfeitamente possível e nada sobrenatural a comunicabilidade com os Espíritos e, finalmente, que há pluralidade de mundos habitados, convindo enfatizar que a convicção gera segurança, confiança, certeza mesmo!

Certeza de onde viemos, o que estamos aqui fazendo e para onde vamos.

Certeza de que nada acontece por acaso e de que não há coincidências.

Certeza de que a família onde renascemos e os familiares que temos são os melhores para a nossa evolução, a despeito das aparências em contrário.

Certeza de que as Leis Divinas ou Naturais são perfeitas e imutáveis, de tal modo que fomos criados todos iguais, simples e ignorantes, e, portanto, partimos do mesmo ponto, não havendo, por isso, seres privilegiados na Criação, nem privilégio de qualquer espécie a quem quer que seja.

Certeza de que as dificuldades e os problemas que temos ou pelos quais passamos, de qualquer ordem, têm razão de ser e contribuem para o nosso progresso individual, servindo-nos de verdadeira alavanca, uma vez que não existem vítimas nesse contexto.

Certeza de que a semeadura é livre, mas a colheita obrigatória, isto é, que iremos colher exatamente aquilo que plantarmos, de maneira que somos os responsáveis pelo nosso próprio futuro, que, nestas condições, está em nossas mãos.

Certeza de que cada um de nós, sem nenhuma exceção, nem mesmo a de viciados ou a de encarcerados, possui o seu Espírito Protetor, o seu Anjo da Guarda, que permanentemente nos sugere e inspira boas idéias, e que vibra para que tomemos as melhores decisões, mas que não pode e não deve fazer a nossa parte.

Certeza de que Deus não castiga e não premia a ninguém e, por igual, de que a cada um será concedido de conformidade com as suas obras.

Certeza, por fim, dentre tantas outras, de que Deus, nosso Pai Celestial, nos concederá todas as oportunidades de que necessitemos para corrigir e quitar nossos erros, males e equívocos, até que nos ajustemos e reajustemos com as leis que regem a vida, zerando a nossa contabilidade e habilitando-nos a vivenciar a Luz, a perfeição relativa e a suprema felicidade!

A convicção geralmente advém do estudo, da observação e da análise constantes, em que os postulados doutrinários passam pelos crivos da lógica e da razão...

(Jornal Mundo Espírita de Setembro de 98)