Um pouco mais além

João da Silva Carvalho Neto

Em nossa vida material, todos estamos vinculados ao espaço físico que, regido por leis, estabelece limites sob vários ângulos. A matéria, entendida como base da criação divina, se caracteriza por estados diferenciados nos quais a energia flui através de forças que configuram o Universo onde nos situamos. Dentro dessa conjunção, e submetidos a ela, reside o nosso restrito campo de ação, nas perambulações entre a erraticidade e os períodos encarnatórios. Por isso, apesar de planos arrojados, quão ambiciosos que estabelecemos na nossa pretensão, quase nunca os concretizamos de maneira satisfatória. São os limites subestimados que acabam trazendo-nos à realidade do que somos e do que podemos.

Vejamos, por exemplo, nas atividades de nossas casas espíritas, aquele companheiro que, diante do manancial de verdades que se abrem à sua frente, empolga-se de tal modo imaginando poder resolver todos os problemas da multimilenária história do ser humano. Situação compreensível, mas que precisa ser amadurecida para que, mal avaliando nossos limites, não encontremos decepções e frustrações.

Muitas casas espíritas, envolvidas nesse psiquismo de empolgação imatura, perdem o verdadeiro sentido da proposta doutrinária, submetendo-se a tarefas e realizações que se tornam em pesado encargo, difícil de ser desfeito. Assim se dá na assistência social ou no auxílio aos enfermos, quando supervalorizamos o potencial de trabalho que temos - inclusive depositando responsabilidades sobre ombros despreparados para tal, para cairmos no arrependimento da iniciativa ou, pior ainda, no mal cumprimento do atendimento que prestamos à nossa clientela, o que resulta em péssima divulgação para a Doutrina Espírita. Acabamos vencidos pela falta de tempo, de espaço físico, de saúde, de recursos amoedados, enfim, pelos limites naturais que precisam ser respeitados, tornando-nos heróis do mal humor e do azedume.

Por outro lado, fugimos do compromisso maior que temos com Deus de nos aprimorarmos para atingir as metas de evolução do Espírito imortal, o que não significa, como pensam muitos, volume de realizações mas sim qualidade nos comprometimentos. E, nesse campo, podemos caminhar um pouco mais em nossos esforços, alargando nossos limites.

Na questão nº 132 de "O Livro dos Espíritos" Allan Kardec questiona: "Qual é a finalidade da encarnação dos Espíritos?" , para o que recebe como resposta: "Deus a impõe com o fim de levá-los à perfeição..."

Dessa forma, todas a ações que protagonizamos, inclusive as de natureza espírita, são opções de caminho para um desiderato maior: o aprimoramento espiritual. As ações têm os limites naturais da situação física em que nossa inferioridade nos situa, mas o aprimoramento espiritual não encontra barreira entre o que somos e a perfeição, estando submetido apenas ao livre exercício da vontade. Por isso, podemos fazer essa poderosa alavanca nos movimentar mais à frente, talvez um pouco mais além...

Se realmente formos melhores, nossa simples presença agindo no seio da humanidade a fará melhor, e qualquer ação de nossa parte será um ponto concreto em favor da evolução humana.

Visitando as irmãs de Lázaro, Jesus observa Marta que se inquieta com os afazeres domésticos, enquanto Maria aproveita para beber do Mestre as lições imorredouras que fluíam de sua imensa sabedoria. Então Jesus orienta: "Marta, Marta, inquietas-te e te confundes com muitas coisas; uma só coisa é necessária! Maria escolheu, de fato, a melhor parte, que não lhe será tirada". ( Lucas 10: 41 e 42)

A melhor parte será sempre o estado de espírito em harmonia, portador do sublime sentimento do amor, que é paciente e manso. As obras, ainda que de vultuosa importância, somente traduzirão significados de utilidade quando sustentadas pelo bem espontâneo que transborda dos corações iluminados na vivência evangélica.

A pergunta do juízo consciencial que faremos, um dia, frente às nossas recordações, não será de quanto obramos nas tarefas beneficentes mas de como o bem expandiu-se ao próximo através de nossas próprias ações.

Conforme os versos da poetisa Adayla Barbosa, em "Canções do Velho Moinho": "O amor que eu sei é manso como o rio que desce da montanha. É calado e sereno como o abrir de uma flor."

Se realmente formos melhores, nossa simples presença agindo no seio da humanidade a fará melhor, e qualquer ação de nossa parte será um ponto concreto em favor da evolução humana.

(Jornal Mundo Espírita de Maio de 1998)