Meios e finalidades

Leda de Almeida Rezende Ebner

de Ribeirão Preto, SP

Um político interessado em melhorar as condições do país e do povo, decide candidatar-se a um cargo eletivo. Durante a campanha, faz promessas que sabe não poder cumprir, compra votos, doa presentinhos, enfim faz coisas que, muitas vezes contraria essa própria consciência e sua própria filosofia de vida.

Nas competições esportivas, ora-se a Deus, faz-se promessas aos santos da devoção, deseja-se que os bons jogadores concorrentes sejam impedidos de jogar por doença ou qualquer outro motivo. Os apaixonados pelo esporte fazem o que podem e, muitas vezes, o que não devem para que seu time ganhe.

No último jogo de futebol Brasil e Uruguai, um grupo de pessoas, em um hotel, assistia pela TV e muitos se revoltaram contra as agressões dos jogadores uruguaios aos brasileiros. Num dado momento um brasileiro agrediu um uruguaio. Quase todos aplaudiram. E, uma das senhoras, ao ver a cena reprisada, disse alto: "— Não houve nada; ele pulou e caiu porque quis!"

Um jovem quer ganhar muito dinheiro, ficar rico. Joga-se no trabalho, usa diversos recursos e meios, inclusive ilegais e antiético para atingir seu objetivo.

Sociedades beneficentes, religiosas ou não, muitas vezes usam de meios coercitivos para conseguirem doações, para que elas possa auxiliar o próximo.

O rapaz querendo conquistar a moça, capricha na sua aparência, nas maneiras educadas de falar e agir, apresenta-se melhor do que é, aparenta viver com mais dinheiro do que tem, para despertar o "amor" da moça.

Enfim, "na guerra como no amor, vale tudo" diz um ditado antigo, justificando que para uma finalidade nobre ou útil, qualquer meio torna-se também, nobre e útil. É o mesmo que "o fim justifica os meios".

Será que tudo nos é permitido quando nossa intenção é boa, quando nossos objetivos se tornam bons?

É normal que, na caminhada evolutiva, o homem. enquanto não entende idéias mais abstratas como valores espirituais e morais, veja apenas o seu interesse pessoal do momento. Age, então de acordo com seus instintos básicos. Mas, à medida que percebe que existe uma relação entre ele e os outros; que as ações suas e dos outros geram reações e que essas reações provocam situações outras, diferentes, mais complexas muitas vezes, agradáveis ou desagradáveis de acordo com o sentir, o pensar do outro, começa a controlar suas emoções, seus sentimentos, para um dia, ser capaz de colocar-se no lugar do outro, em qualquer momento ou situação e perceber o que o outro pode estar sentindo.

Não podemos viver isolados. O homem é um ser social, isto é, desenvolve-se no viver em sociedade, no relacionar-se uns com os outros e, somente no relacionamento simpático, agradável e solidário, encontra ele a paz interior, a felicidade relativa à Terra.

Assim, meios e finalidades estão intimamente ligados. O homem que rouba, usando meios violentos, está sendo coerente com o fim a que almeja: apropriar-se do pertence do outro, visto que este não lhe daria de outro modo, O político que usa meios ilegais ou antiéticos para eleger-se está demonstrando que seus objetivos também não são éticos; talvez, vise apenas seus interesses pessoais.

O Espiritismo nos ensina que em tudo que faz, o homem tem a responsabilidade e que existe uma lei divina, natural de causa e efeito, funcionando sempre, independentemente do nosso querer ou da nossa aceitação. E essa lei, disseram os Espíritos a Kardec, está inscrita na consciência de cada um.

Então, quando o homem, já mais esclarecido, percebe a inter-relação entre os homens, ele já tem a condição interna de controlar-se, modificar-se, auto-educar-se, aprendendo a ser melhor pessoa e a não provocar males maiores com suas ações instintivas, com suas emoções desequilibradas.

Se, como pais, pretendemos que nossos filhos sejam pessoas de bem, úteis a si, à família e à sociedade, temos de usar, no processo educativo, meios correspondentes a essas metas.

Então, não se pode mais usar de rigidez, de meios agressivos de palavras ou ações, porque esses meios não correspondem às aspirações que temos para nossos filhos.

Mas, como um pai ou uma mãe, de natureza autoritária e agressiva, características desenvolvidas em existências passadas, podem usar de energia branda na educação dos seus filhos? Como conciliar os meios com as finalidades nesse relacionamento?

Evidentemente, que esse pai ou essa mãe vai encontrar grande dificuldade para agir coerentemente com seus objetivos. Vai errar muitas vezes, mas, se estiver atento ao que realmente deseja e quer, vai esforçar-se para evitar situações agressivas. Vai vigiar-se, orar muito a Deus pedindo a ajuda dos Espíritos protetores de sua família, vai pegar-se muitas vezes em flagrante, e, quantas vezes isso acontecer, vai continuar, perseverantemente, no esforço de educar-se.

Ao lado disso, vai procurar manter diálogo permanente com o cônjuge, com os filhos, nos erros, nos acertos, sobre todo assunto e sobre toda e qualquer situação.

Desse modo, os filhos vão percebê-lo não como pai ou mãe perfeitos, mas como pessoa que se sabe imperfeita, que se esforça por acertar, por progredir sempre. E essa constatação, mais que quaisquer palavras o engrandeça diante dos seus filhos, se não no presente, com certeza, num futuro próximo.

A mesma estratégia de buscar sempre a coerência entre meios e fins, em quaisquer relacionamentos no lar, na política, no trabalho, nas atividades das sociedades beneficentes, etc., por certo trará, a quem assim o fizer, paz e equilíbrio interior.

A aceitação de que é necessário vivermos em sociedade, participando de suas atividades, de que dependemos uns dos outros, influenciando-nos mutuamente independentemente do nosso querer, traz-nos a certeza de que somente no respeito ao outro, ao seu entendimento, aos seus sentimentos e emoções, aos seus direitos é que podemos colaborar com a paz e a felicidade de todos nós, tornando a nossa sociedade justa e mais cristã.

(Jornal Verdade e Luz Nº 175 de Agosto de 2000)