O Guia Real

José Argemiro da Silveira

de Ribeirão Preto, SP

"Que dizem os homens que sou? Disseram os discípulos: Uns dizem João Batista, outros Elias, outros Jeremias ou um dos profetas. E vós, quem dizeis que sou? Pedro respondeu: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo" (Mateus, 16: 13 a 16).

Sem desprezar outras apreciações que o texto acima faculta, observamos que Jesus procurou esclarecer os discípulos sobre quem é Ele. Primeiro indaga quanto a opinião das pessoas a seu respeito, depois pergunta aos próprios discípulos, quem era Ele. E Pedro afirma: "Tu és o Cristo, filho de Deus vivo", e recebe total aprovação do Mestre, dizendo: "Bem-aventurados és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue quem to revelou, mas sim meu Pai que está nos céus". Não foi Pedro (o homem de carne e sangue) o autor da revelação, mas o Pai que está nos céus, isto é, Pedro foi um instrumento de Deus ao dar a resposta precisa.

Quem é Jesus? Se essa pergunta nos for feita hoje, o que responderemos? Para alguns Jesus é apenas um homem sábio, um filósofo, ou um profeta. Os Judeus continuam esperando a vinda do Messias. Há quem considera Jesus um revolucionário, um anarquista. Há um livro com este título: "Jesus, o maior dos anarquistas". Para grande parte dos cristãos Jesus seria o próprio Deus, o Criador de tudo que existe. E para o espírita, quem é Jesus? Emmanuel, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, no livro "A Caminho da Luz", afirma: "Rezam as tradições do mundo espiritual que na direção de todos os fenômenos, do nosso sistema, existe uma Comunidade de Espíritos Puros e Eleitos pelo Senhor Supremo do Universo, em cujas mãos se conservam as rédeas diretoras da vida de todos as coletividades planetárias. Essa comunidade de seres angélicos e perfeitos, da qual é Jesus um dos membros divinos, ao que nos foi dado saber, apenas já se reuniu, nas proximidades da Terra, para a solução de problemas decisivos da organização e da direção do nosso planeta, por duas vezes no curso dos milênios conhecidos. A primeira, verificou-se quando o orbe terrestre se desprendia da nebulosa solar, a fim de que se lançassem, no Tempo e no Espaço, as balizas do nosso sistema cosmogônico e os pródromos da vida na matéria em ignição, do planeta, e a segunda, quando se decidia a vinda do Senhor à face da Terra, trazendo à família humana a lição imortal do seu Evangelho de amor e redenção".

Assim, Jesus é um Espírito, filho de Deus, como nós, com a diferença de que, ao ser formado o nosso planeta. Ele já era um Ser da mais alta evolução. Não há possibilidade de comparação entre Jesus e qualquer outro Espírito que já tenha passado pela Terra, por mais sábio e bom que este seja. Jesus teria realizado o seu processo evolutivo em outros mundos, e já fazia parte da "Comunidade de Espíritos Puros" antes da formação do nosso orbe.

No Livro dos Espíritos, questão 625, pergunta Allan Kardec: "Qual o tipo mais perfeito que Deus ofereceu ao homem, para lhe servir de guia e modelo?" Resposta: "Vede Jesus". E Kardec comenta: "Jesus é para o homem o tipo de perfeição moral a que pode aspirar a Humanidade na Terra. Deus no-lo oferece como o mais perfeito modelo e a doutrina que ele ensinou é a mais pura expressão de sua lei, porque ele estava animado do Espírito divino e foi o ser mais puro que já apareceu na Terra...".

Jesus nos propõe um programa de trabalho ao nos convidar: "Se alguém me quiser seguir, negue-se a si mesmo, e tome a sua cruz, e siga-me". Muitas vezes procuramos seguir os cristãos, e não o Cristo. Quem segue Jesus está sempre em boa Companhia, não sofre decepções. Tem sempre um roteiro de aprendizado e de trabalho, para realizar sua evolução espiritual. No estudo e compreensão dos ensinos do Mestre, e, ao mesmo tempo, empenhado em vivenciá-los no cotidiano, vai compreendendo cada vez melhor as leis divinas, e desenvolvendo as potencialidades do Espírito. Seguir os cristãos é algo bem diferente. Estes podem ser bem intencionados, imbuídos dos melhores ideais, mas como criaturas ainda imperfeitas estão sujeitas a erros e fracassos. Seja o sacerdote católico, o pastor evangélico, o médium espírita ou o orador, administrador de instituições podem ser pessoas bem intencionadas, que prestam bons serviços ao ideal, mas não reúnem condições para serem guias, ou modelos. No nosso caso, no movimento espírita, podemos observar que, às vezes, irmãos valorosos, ao longo do tempo, sofrem desvios de conduta em suas atividades, enveredando por caminhos equivocados. Isto é natural, pois é próprio da fraqueza do Espírito em evolução, num mundo como o nosso.

Alerta-nos Emmanuel: "Na procura de orientação para a conquista da felicidade suprema, com base na alegria santificante, lembra-te de que não podes encontrar a diretriz integral entre aqueles que te comungam a experiência terrestre. Nem na tribuna, nem nos pioneiros da evolução, nem no trabalho dos pesquisadores, nem na cátedra dos professores, nem na veste dos sacerdotes, nem no bastão dos pastores, nem na pena dos escritores, nem na frase incisiva dos pregadores ardentes, nem na mensagem reconfortante dos benfeitores desencarnados. Em todos, surpreenderás, em maior ou menor porção, defeito e virtude, fealdade e beleza, acertos e desacertos, sombras e luzes. Cada um deles algo te ensina, beneficiando-te de algum modo; contudo, igualmente caminham, vencendo com dificuldade a si mesmos... Cada um é credor de nossa gratidão e de nosso respeito pelo amor e pela cultura que espalha, mas no campo da Humanidade só existe um orientador completo e irrepreensível. Tendo nascido na palha, para doar-nos a glória da vida simples, expirou numa cruz pelo bem de todos, a fim de mostrar-nos o trilho da eterna ressurreição"1

1 - Emmanuel - Religião dos Espíritos, psicografia de Francisco C. Xavier.

(Jornal Verdade e Luz Nº 179 de Dezembro de 2000)